O poeta russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930) esbraveja no insuportável calor russo e atiça a ira solar. Tanto fez que o sol resolveu chegar mais perto. Foi entrando na casa, em raios largos, encurralando e apavorando o poeta. Ele consegue contornar a situação e convida o sol para tomar um chá. No fim, os dois ficam amigos e concluem: gente é para brilhar! Este era o lema do poeta e também do sol.
Este poema foi escrito em 1920, ano de uma histórica onda de calor na Rússia. Foi em julho de 1920 que Moscou registrou inacreditáveis 36,8ºC. Em 130 anos de medições meteorológicas, esta foi a maior temperatura já registrada em Moscou, até ser superada pelos 37,2ºC do dia 26 de julho de 2010.
A tradução que segue é de Augusto de Campos (1931-), poeta, tradutor e escritor brasileiro, também ensaÃsta, crÃtico literário e musical. É de Augusto de Campos o vÃdeo-poema abaixo, sobre as últimas estrofes de “A extraordinária aventura…..”

Augusto de Campos - sol de maiakóvski (1982-1993)
A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha
A tarde ardia com cem sóis.
O verão rolava em julho.
O calor se enrolava
no ar e nos lençóis
da datcha onde eu estava.
Na colina de Púchkino, corcunda,
o monte Akula,
e ao pé do monte
a aldeia enruga
a casca dos telhados.
E atrás da aldeia,
um buraco
e no buraco, todo dia,
o mesmo ato:
o sol descia
lento e exato.
E de manhã
outra vez
por toda parte
lá estava o sol
escarlate.
Dia após dia
isto
começou a irritar-me
terrivelmente.
Um dia me enfureço a tal ponto
que, de pavor, tudo empalidece.
E grito ao sol, de pronto:
“Desce!
Chega de vadiar nessa fornalha!”
E grito ao sol:
“Parasita!
Você, aÃ, a flanar pelos ares,
e eu, aqui, cheio de tinta,
com a cara nos cartazes!”
E grito ao sol:
“Espere!
Ouça, topete de ouro,
e se em lugar
desse ocaso
de paxá
você baixar em casa
para um chá?”
Que mosca me mordeu!
É o meu fim!
Para mim
sem perder tempo
o sol
alargando os raios-passos
avança pelo campo.
Não quero mostrar medo.
Recuo para o quarto.
Seus olhos brilham no jardim.
Avançam mais.
Pelas janelas,
pelas portas,
pelas frestas,
a massa
solar vem abaixo
e invade a minha casa.
Recobrando o fôlego,
me diz o sol com voz de baixo:
“Pela primeira vez recolho o fogo,
desde que o mundo foi criado.
Você me chamou?
Apanhe o chá,
pegue a compota, poeta!”
Lágrimas nas pontas dos olhos
-e o calor me fazia desvairar-
eu lhe mostro o samovar:
“Pois bem,
sente-se astro!”
Quem mandou berrar ao sol
insolências sem conta?
Contrafeito
me sento numa ponta
do banco e espero a conta
com um frio no peito.
Mas uma estranha claridade
fluÃa sobre o quarto
e esquecendo os cuidados
começo
pouco a pouco
a palestrar com o astro.
Falo disso e daquilo,
como me cansa a Rosta,
etc.
Eo sol:
“Está certo,
mas não se desgoste,
não pinte coisas tão pretas.
E eu? Você pensa
que brilhar
é fácil?
Prove, pra ver!
Mas quando se começa
é preciso prosseguir
e a gente vai e brilha pra valer!”
Conversamos até a noite
ou até o que ,antes ,eram trevas.
Como falar, ali, de sombras?
Ficamos Ãntimos,
os dois.
Logo,
com desassombro,
estou batendo no seu ombro.
E o sol por fim:
“Somos amigos
pra sempre, eu de você,
você de mim.
Vamos poeta,
cantar,
luzir
no lixo cinza do universo.
Eu verterei o meu sol
e você o seu
com seus versos.”
O muro das sombras,
prisão das trevas,
desaba sob o obus
dos nossos sóis de duas bocas.
Confusão de poesia e luz,
chamas por toda parte.
Se o sol se cansa
e a noite lenta
quer ir pra cama,
marmota sonolenta,
eu, de repente,
inflamo minha flama
e o dia fulge novamente.
Brilhar pra sempre,
brilhar como um farol,
brilhar com brilho eterno,
gente é pra brilhar,
que tudo o mais vá pro inferno,
este é o meu slogan
e o do sol.
Tags: Augusto de Campos, calor, Internacional, Vladimir Maiakóvski
Esse post foi publicado de quarta-feira, 28 de julho de 2010 Ã s 17:30, e arquivado em Internacional.
Última modificação:
quarta-feira, 10 de novembro de 2010 às 13:02
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