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Brasília: a borboleta que virou avião

21/04/2010 às 12:15
por Josélia Pegorim

O pa
i não gostava que a comparassem a um avião. Para ele, era uma borboleta. Na imaginação de Lucio Costa, o arquiteto que idealizou os traçados de Brasília, a capital federal deveria ser como uma borboleta. Talvez por suas gigantescas asas, seu desenho urbanístico acabou sendo comparado a um avião. As curvas dos prédios de Oscar Niemeyer viraram referência arquitetônica e foram imitadas por muitos anos, até nas fachadas de pequenas casas pelo interior do país. Brasília foi construída num tempo recorde, por milhares de trabalhadores. Talvez cada estado do Brasil tenha mandado para lá um representante. A borboleta do cerrado cresceu muito além do que seu pai planejou. Tem cidades satélites ao seu redor. Aos 50 anos, já tem problemas com trânsito, engarrafamentos e outros incômodos comuns a qualquer grande centro urbano. Como suas asas e curvas, seu horizonte de 360 graus,  o ar seco demais deve ser a característica meteorológica de Brasília mais lembrada pelos brasileiros.   Com razão. Durante meses seguidos, a capital do Brasil, como quase toda  a Região Centro-Oeste, fica ensolarada, com índices de umidade do ar que, em alguns dias, podem se aproximar daqueles observados nos desertos. Mas lá também pode chover muito. Tem calor, frio e até granizo. Só que em épocas bem definidas. O clima de Brasília é 8 ou 80: uma época de muita chuva e outra de seca. A construção da cidade começou em 1957 e as medições meteorológicas regulares, feitas pelo Instituto Nacional de Meteorologia, se iniciaram em 1963. Aos 50 anos, Brasília tem recordes meteorológicos impressionantes. Os valores a seguir foram informados pelo Instituto Nacional de Meteorologia.

A chuva

O regime de chuva em Brasília é muito bem marcado. A média anual é de aproximadamente 1552 milímetros, mas praticamente toda a chuva ocorre entre os meses de outubro a abril. Entre maio e setembro, a capital federal pode passar dois até três meses inteiros sem nenhuma gota de chuva. O auge da seca é junho, que tem média de chuva perto de 9 milímetros. É interessante lembrar que os valores médios que definem a climatologia de um local são conseguidos após medições diárias por 30 anos. Assim, uma média de 9 milímetros, um valor muito baixo, significa que na maioria dos meses de junho, em 30 anos, não choveu.

136,6 mm

- a maior quantidade de chuva registrada em 24 horas, em 9 de fevereiro de 2005.

1965

- o ano mais chuvoso, quando a cidade recebeu impressionantes 2004,4 milímetros. Foi quase um ano de clima amazônico de tanta chuva. Mas a chuva de 2009 também vai ficar na história climatológica. Foram 1783,5 milímetros acumulados ao longo do ano e só não houve registro de alguma chuva durante o mês de julho.

Abril de 2009

- este mês entrou para a história meteorológica de Brasília como o mais chuvoso desde o início das medições regulares. Choveu 375,9 milímetros, mais do que o triplo do normal para o mês. A média de chuva para abril é de aproximadamente 124 milímetros. A chuva acumulada em abril de 2009 superou a média de dezembro, que é de quase 249 milímetros e a maior do ano.

A temperatura

Na época da seca, as noites limpas, sem nuvens, facilitam um forte resfriamento do ar. Assim, as noites e o começo da manhã podem ser um pouco frios. Mas com o sol forte, desde o amanhecer, esquenta rápido. No período chuvoso, o ar fica quente e até abafado.  Mas antes da chuvarada começar, os brasilienses podem sentir muito calor.  Os meses mais quentes são setembro e outubro. Os mais frios, junho e julho.

35,8ºC

- a maior temperatura já registrada em Brasília, no dia 28 de outubro de 2008.

1,6ºC

- a temperatura mais baixa foi no lendário ano de 1975 e os brasilienses sentiram um frio de 1,6ºC no dia 18 de julho daquele ano.

A seca

135 dias

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, o mais longo período de seca em Brasília ocorreu em 1970. Foram 135 dias seguidos sem chuva.

1986

Nos seus 50 anos de vida, o ano mais seco, com a menor quantidade de chuva foi o de 1986.

Um evento imprevisível

Era agosto de 2002. Na sala da previsão da Climatempo estavam pelo menos 3 meteorologistas bastante experientes, conhecedores da climatologia do país. Sabiam muito bem qual a época mais chuvosa e a mais seca em Brasília. Agosto é de seca, com níveis de umidade ainda muito baixos. Em anos normais, a chance de alguma chuva é mínima, para não dizer nula. Diante disto, a informação meteorológica que veio do aeroporto de Brasília deixou toda a sala espantada. Granizo em Brasília, no mês de agosto? Não pode ser! Mas estava lá, documentado. Ana Lúcia, a vice-presidente da empresa, na época ligou para parentes que moravam em Brasília para confirmar a observação, ou se pelo menos estava chovendo. Estava. Mais tarde, as imagens de satélite mostrariam um pequeno núcleo de nuvens carregadas que passaram sobre a capital federal e originaram a queda de granizo. Granizo é gelo que se forma em nuvens de grande extensão vertical, geradas pelo calor e alta umidade. Não chovia em Brasília há uns 30 dias e a umidade do ar já havia baixado para 10%. A queda de granizo ocorreu no dia 27 de agosto de 2002. Este tipo de evento meteorológico é praticamente impossível de ser previsto, de tão raro.