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Cem sóis de Maiakóvski em um histórico verão russo

28/07/2010 às 17:30
por Josélia Pegorim

O po
eta russo Vladimir Maiakóvski (1893-1930) esbraveja no insuportável calor russo e atiça a ira solar. Tanto fez que o sol resolveu chegar mais perto. Foi entrando na casa, em raios largos, encurralando e apavorando o poeta. Ele consegue contornar a situação  e convida o sol para tomar um chá. No fim, os dois ficam amigos e concluem: gente é para brilhar! Este era o lema do poeta e também do sol. Este poema foi escrito em 1920, ano de uma histórica onda de calor na Rússia. Foi em julho de 1920 que Moscou registrou inacreditáveis 36,8ºC. Em 130 anos de medições meteorológicas, esta foi a maior temperatura já registrada em Moscou, até ser superada pelos 37,2ºC do dia 26 de julho de 2010. A tradução que segue é de Augusto de Campos (1931-), poeta, tradutor e escritor brasileiro, também ensaísta, crítico literário e musical.  É de Augusto de Campos o vídeo-poema abaixo, sobre as últimas estrofes de "A extraordinária aventura....." Augusto de Campos  -  sol de maiakóvski (1982-1993) A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na Datcha A tarde ardia com cem sóis. O verão rolava em julho. O calor se enrolava no ar e nos lençóis da datcha onde eu estava. Na colina de Púchkino, corcunda, o monte Akula, e ao pé do monte a aldeia enruga a casca dos telhados. E atrás da aldeia, um buraco e no buraco, todo dia, o mesmo ato: o sol descia lento e exato. E de manhã outra vez por toda parte lá estava o sol escarlate. Dia após dia isto começou a irritar-me terrivelmente. Um dia me enfureço a tal ponto que, de pavor, tudo empalidece. E grito ao sol, de pronto: "Desce! Chega de vadiar nessa fornalha!" E grito ao sol: "Parasita! Você, aí, a flanar pelos ares, e eu, aqui, cheio de tinta, com a cara nos cartazes!" E grito ao sol: "Espere! Ouça, topete de ouro, e se em lugar desse ocaso de paxá você baixar em casa para um chá?" Que mosca me mordeu! É o meu fim! Para mim sem perder tempo o sol alargando os raios-passos avança pelo campo. Não quero mostrar medo. Recuo para o quarto. Seus olhos brilham no jardim. Avançam mais. Pelas janelas, pelas portas, pelas frestas, a massa solar vem abaixo e invade a minha casa. Recobrando o fôlego, me diz o sol com voz de baixo: "Pela primeira vez recolho o fogo, desde que o mundo foi criado. Você me chamou? Apanhe o chá, pegue a compota, poeta!" Lágrimas nas pontas dos olhos -e o calor me fazia desvairar- eu lhe mostro o samovar: "Pois bem, sente-se astro!" Quem mandou berrar ao sol insolências sem conta? Contrafeito me sento numa ponta do banco e espero a conta com um frio no peito. Mas uma estranha claridade fluía sobre o quarto e esquecendo os cuidados começo pouco a pouco a palestrar com o astro. Falo disso e daquilo, como me cansa a Rosta, etc. Eo sol: "Está certo, mas não se desgoste, não pinte coisas tão pretas. E eu? Você pensa que brilhar é fácil? Prove, pra ver! Mas quando se começa é preciso prosseguir e a gente vai e brilha pra valer!" Conversamos até a noite ou até o que ,antes ,eram trevas. Como falar, ali, de sombras? Ficamos íntimos, os dois. Logo, com desassombro, estou batendo no seu ombro. E o sol por fim: "Somos amigos pra sempre, eu de você, você de mim. Vamos poeta, cantar, luzir no lixo cinza do universo. Eu verterei o meu sol e você o seu com seus versos." O muro das sombras, prisão das trevas, desaba sob o obus dos nossos sóis de duas bocas. Confusão de poesia e luz, chamas por toda parte. Se o sol se cansa e a noite lenta quer ir pra cama, marmota sonolenta, eu, de repente, inflamo minha flama e o dia fulge novamente. Brilhar pra sempre, brilhar como um farol, brilhar com brilho eterno, gente é pra brilhar, que tudo o mais vá pro inferno, este é o meu slogan e o do sol.