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O que provocou a dramática seca na Califórnia?

10/04/2015 às 19:03
por Josélia Pegorim

Era
primeiro de abril, mas não era mentira. A população do estado norte-americano da Califórnia acordou no primeiro de abril de 2015 com a notícia de um racionamento severo. O governador da Califórnia Jerry Brown impôs a situação de emergência e determinou que todos os setores da sociedade, empresas, residências, nas cidades e no meio rural reduzissem 25% no consumo de água. Como é a chuva na Califórnia? A Califórnia é um estado de grande extensão latitudinal, o que determina uma grande variação climática.  Tecnicamente a classificação climática é de "clima mediterrâneo". O norte do estado é bastante chuvoso, mas o sul tem um clima semiárido comparável ao interior do Nordeste do Brasil e até desértico. Seu relevo  e localização geográfica proporcionam situações meteorológicas muito distintas entre as diversas regiões do estado. Há a influência do Oceano Pacífico, de ciclones tropicais no sul do Estado, de grandes cadeias de montanha como a Sierra Nevada. É daí que sai o rio Owens, cuja a água é captada para servir Los Angeles. O lago Owens, para o qual deveria ir o rio de mesmo nome, hoje está completamente seco. A média de chuva anual varia de 3000 mm no norte a menos 100 mm no deserto do sul. O regime de chuva é de inverno, dezembro a março no Hemisfério Norte. Quase toda a chuva do ano ocorre nestes meses.     Califórnia tem histórico de secas severas Secas severas, mega secas, como se fala nos Estados Unidos, já ocorreram no passado climático da Califórnia. Mas uma combinação de fatores atmosféricos com a atividade humana levou o estado a um esgotamento hídrico. Dezembro e janeiro normalmente são os meses mais chuvosos do período chuvoso. Mas em janeiro de 2015, o volume de chuva acumulado na maioria das regiões da Califórnia ficou abaixo de 25% da média normal de chuva. Água de degelo Algumas áreas no sul da Califórnia são abastecidas com água de degelo, do derretimento da neve das montanhas. Se nevar pouco no inverno (dezembro a março), o suprimento de água naturalmente diminui para o verão (de junho a setembro). Em 2015 praticamente não nevou. Veja a comparação das imagens de satélite abaixo.   Índice de seca excepcional No começo de março de 2015, órgãos de monitoramento do clima do governo dos Estados Unidos como o USDA (United States Department of Agriculture) e NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) consideraram a seca da Califórnia como "excepcional". O índice de seca chegou nível 4. Isto é pior do que seca extrema.   Como os meteorologistas norte-americanos explicam esta seca severa? Na expectativa de um El Niño em 2015, como o fenômeno influenciaria o regime de chuvas na Califórnia. El Niño será bom ou ruim agora? Quais semelhanças com a seca no Brasil? Para responder estas e outras questões, a meteorologista Josélia Pegorim entrevistou Leila Carvalho, meteorologista brasileira, que reside na Califórnia e é professora na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. A matéria está divida em duas partes. Na primeira, as meteorologistas conversam sobre as causas meteorológicas que geraram a seca e traçam um paralelo com o que ocorreu no Brasil. Na segunda parte, a questão do El Niño é analisada. Trechos de uma correspondência enviada pela professora Leila Carvalho para a Josélia Pegorim: Sobre fontes de água "Por enquanto não tem dessalinização. A origem da água muda um pouco de lugar para lugar. O maior problema da água na Califórnia é a agricultura que usa muito para irrigação. A água subterrânea é muito explorada também, sobretudo para a agricultura. Mas existe muita gente explorando essa água também para outros fins. A água para grandes cidades como Los Angeles vem de longas distâncias." Sobre El Niño e as águas muito aquecidos do Pacífico na costa da Califórnia "Aqui está seco mesmo! O El Niño, se acontecer, ajudará a aliviar a situação mas, não a resolvê-la. Outra coisa interessante que está acontecendo aqui é o calor intenso. A água do mar está muito quente e está ocorrendo a morte de leões marinhos na nossa costa. As mães estão abandonando os filhotes e já foram encontrados centenas deles. É muito triste ver isto. Eu já vi vários só aqui na orla marinha da UCSB (Universidade da Califórnia em Santa Bárbara). Elas os estão abandonando porque a água do mar, próximo da costa, está muito quente. Os peixes que normalmente habitam a região costeira estão migrando para águas mais frias." "Nessa época do ano, as mães veêm dar cria próximo da costa e com a escassez de alimentos, elas estão abandonando as crias. Com isso também os tubarões estão se beneficiando e tem tido mais casos deles na costa. Mas a questão dos leões marinhos é bem séria. Eles (pessoas e instituições que trabalham na área de proteção ambiental) já encontraram centenas deles. Eles têm um carro que fica monitorando a costa. Quando eles encontram um, tentam resgatá-lo, dão uma mamadeira de peixe com outros nutrientes, mas são obrigados a retorná-los ao mar, pois são tantos que não dá para mantê-los todos em cativeiros."   Seca na Califórnia - parte 1: O que provocou a seca tão severa?     Seca na Califórnia - parte 2:  O El Niño poderia aliviar a seca?   Confira as análises da seca no Brasil Reservatórios de energia no fundo do poço El Niño 2015: agora vai? Teremos mais apagões? Bloqueio atmosférico reduziu a chuva em janeiro no Brasil