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Socos atmosféricos

27/09/2010 às 09:13
por Josélia Pegorim

A vi
rada do inverno para a primavera foi pródiga em surpresas para os meteorologistas, e talvez não apenas para os brasileiros, por conta de alguns erros de previsão associados com ocorrência de fenômenos extremos em diferentes locais do Brasil. No dia 21 de setembro, a queda de granizo sobre Guarulhos, na Grande São Paulo, virou manchete nos noticiários pela quantidade e tamanho das pedras de gelo. Em meia-hora, muitas ruas de Guarulhos ficaram cobertas por um grosso tapete branco formado pelos enormes granizos. Telhados e carros foram danificados. No dia seguinte, a manchete era sobre as dezenas de caminhões que foram usados pela prefeitura para retirar o gelo das ruas de Guarulhos. No decorrer da semana, outras quedas de granizo no Estado de São Paulo, mas em pequenas proporções, ou mesmo só pancadas de chuva, também surpreenderam e causaram um grande desconforto aos meteorologistas que fazem previsão do tempo. A semana fechou com outra chuva e queda de granizo inesperada, desta vez no nortão de Mato Grosso, região que vem sofrendo com o calor extremo e a secura do ar, como muitas áreas do Brasil. No fim da tarde do sábado, 25 de setembro, o calor intenso e o aumento do nível de umidade no ar sobre o norte de Mato Grosso gerou nuvens muito carregadas que provocaram pancadas de chuva, vento forte e queda de granizo em Alta Floresta, cidade próxima da divisa com o Pará. A sequência de imagens de satélite mostra a mudança nas condições do tempo na região de Alta Floresta, que está dentro do quadrado em vermelho. Note como as nuvens pesadas vão se formando. As cores azul e rosa indicam que a temperatura da parte superior das nuvens alcançaram de 60  a 70 graus abaixo de zero, o que justifica a formação das pedras de gelo. Estas grandes nuvens provocaram não só a queda do granizo, mas também muita chuva e rajadas de vento com até 56 km/h. Todos estes fenômenos ocorreram entre 16h e 17h30 da tarde do sábado, pelo horário local, ou entre 17h e 18h30 no horário de Brasília, e foram constatados pelos observadores meteorológicos do aeroporto de Alta Floresta. A temperatura durante a tarde chegou aos 36°C e a fumaça das queimadas reduzia a visibilidade, como vinha ocorrendo há vários dias. A primeira trovoada foi notificada às 16h10 (local), ainda com visibilidade prejudicada pela fumaça e um calor de 34°C. Às 17 horas (local), a chuva já caía pesada e a temperatura havia baixado para 26°C. A queda de granizo foi notificada às 17h07 (local), com visibilidade reduzida para 700 metros por conta da chuva e não mais da fumaça. Como no caso de Guarulhos, os meteorologistas da Climatempo não o previram a chuva e muito menos o granizo de Alta Floresta no fim da tarde do sábado passado. Muita gente pode pensar que o que aconteceu em Alta Floresta não pode ser comparado ao evento de Guarulhos, uma cidade muito maior, um grande centro urbano. Para o meteorologista que faz previsão do tempo, os dois casos foram erros (e grandes) de previsão. Pelo aspecto do impacto público, o que aconteceu em Guarulhos foi muito maior pela quantidade de pedras de gelo e pela dimensão dos transtornos e prejuízos causados. Errar é humano, mas este dito popular não serve de consolo para erros na previsão do tempo. Muitos meteorologistas já choraram por seus erros de previsão. Isto também não resolve, mas é uma reação humana, como tantos outros profissionais de outras áreas teriam. Depois de uma sequência de erros como as desta virada do inverno para a primavera de 2010, o meteorologista até dá risada, mas não por descaso. É para não chorar de novo! Talvez seja consenso entre os meteorologistas que um erro de previsão de chuva seja o pior que pode acontecer. Para um lado ou outro. Prever chuva e não chover, prever um dia seco e chover são erros que incomodam demais, irritam o espírito de um meteorologista e pior, têm um impacto público e geram um abalo na credibilidade profissional muito maior do que um erro de temperatura. Todos os erros são ruins, mas o da chuva é uma tremenda bordoada no previsor. A intensidade do soco é tanto maior quanto maior for o número de pessoas afetadas pelo erro. Erros da Meteorologia, e reclamações, acontecem em todos os cantos do planeta e não cabe aqui discorrer sobre o tamanho ou justificativas. São diferentes para cada caso. Mas vale um comentário para o que está acontecendo agora sobre o Brasil. Imagine um animalzinho dentro do ovo, quase para nascer. Ele se mexe para todos os lados e vai trincando a casca, de entro para fora, até que consegue arrebentá-la e sair para mundo. No início deste processo vemos pequenas fissuras e imaginamos onde será que o bichinho vai conseguir bater mais forte e quebrar a casca de vez. É difícil prever e nem tem uma regra que diz que todo ovo com tantos centímetros será arrebentado sempre há tantos milímetros da sua linha central. A atmosfera sobre o Brasil está começando a quebrar a enorme casca de ar seco do inverno. As injeções (ou a distribuição) de umidade (trincas na casca do ovo) começam a ocorrer de forma tão inesperada e desordenada, que as nuvens de chuva (novos bichinhos) vão estourando em locais quase imprevisíveis. É difícil cuidar diariamente da chuva e da seca de todos os cantos do Brasil e ainda mais agora nestas semanas de transição da seca para o gradual aumento da umidade do ar. Quase todo o Brasil já está muito quente porque o número de horas de sol (insolação) está naturalmente aumentando, como sempre acontece nesta época. Por conta da secura que ainda predomina sobre o país, ainda não há cobertura de nuvens (e chuva) suficiente para contrabalançar o superaquecimento. Este é um dos motivos que fazem os meses de primavera serem os mais quentes do ano em praticamente todo o Brasil. É a estação mais provável para termos os recordes de calor. Aqueles que gostam de estudar as coisas do tempo, mesmo não sendo meteorologistas de profissão, poderiam dizer que as análises meteorológicas feitas pelos supercomputadores são ferramentas poderosas e ajudam a prever o tempo com segurança. Sem dúvida! Mas estas análises são imitações, simulações da atmosfera real. Muitas vezes fazem uma cópia quase perfeita da atmosfera real, como um exímio falsário de quadros de pintores famosos. Mas outras tantas vezes, as transformações reais da atmosfera são tão rápidas que demoram a ser percebidas e incorporadas a estas análises de computadores. Por mais algumas semanas, e mesmo ficando em prontidão máxima, sabendo que o ataque poderá acontecer em qualquer lugar, os meteorologistas vão continuar tomando "socos atmosféricos", de direita e de esquerda. Vão conseguir se defender de alguns, mas vão tombar em muitos ainda. Que venham os socos! É chuva de primavera, fundamental, vital.