Estamos sob domínio de uma nova La Niña?

16/09/2017 às 08:09
por Alexandre Nascimento

Atualizado 20/09/2017 às 22:52

Oferecimento
Já começa a se falar em La Niña, mas será que já se pode falar nisso?

Já começa a ser veiculado por alguns institutos e veículos de comunicação que estamos em La Niña. Mas devemos lembrar que meteorologia é uma ciência e que existem critérios previamente estabelecidos e que devem ser respeitados para se determinar algumas situações, como por exemplo, dizer que estamos sofrendo influência de certo fenômeno como a La Niña.

Na primeira quinta-feira de cada mês, cientistas do Climate Prediction Center da NOAA (CPC) juntamente com os previsores do International Research Institute for Climate and Society (IRI) soltam a atualização oficial do status do El-Niño-Oscilação Sul (ENSO). Abaixo vemos a descrição das categorias utilizadas por eles:

 

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Watch: Emitido quando as condições são favoráveis para o desenvolvimento de condições de El Niño ou La Niña dentro dos próximos seis meses.

 

Advisory: Emitido quando condições de El Niño ou La Niña são observadas e há expectativa de que elas continuem.

 

Final Advisory: Emitido depois de finalizadas as condições de El Niño ou La Niña

 

Not Active: Sistema de alertas de ENSO não ativo. Não é observado El Niño  e nem La Niña e não há expectativa destes fenômemos nos próximos seis meses.

 

Critérios para El Niño

- Temperatura média da superfície do mar na região do Niño 3.4 do Oceano Pacífico equatorial (5°N-5°S,120°W-170°W) pelo menos 0.5°C (0.9°F) mais quente que a média no mês anterior e

- A anomalia tem persistido ou espera-se que persista por 5 períodos  consecutivos de três trimestres sobrepostos (e.g. DJF, JFM, FMA, etc), e

-a atmosfera sobre o Pacífico tropical mostra um ou mais mudanças comumente associadas com El Niño:

                -ventos alísios mais fracos que o normal,

                -diminuição da nebulosidade e da chuva sobre a Indonésia e um correspondente aumento da pressão média da superfície, ou

                -aumento de nebulosidade e chuva nas porções centrais e leste do Pacífico e uma correspondente queda na pressão média da superfície

 

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Critérios para La Niña

- Temperatura média da superfície do mar na região do Niño 3.4 do Oceano Pacífico equatorial (5°N-5°S,120°W-170°W) pelo menos 0.5°C (0.9°F) mais fria que a média no mês anterior e

- A anomalia negativa tem persistido ou espera-se que persista por 5 períodos  consecutivos de três trimestres sobrepostos (e.g. DJF, JFM, FMA, etc), e

-a atmosfera sobre o Pacífico tropical mostra um ou mais mudanças comumente associadas com La Niña:

                -ventos alísios mais intensos que o normal,

                -aumento da nebulosidade e da chuva sobre a Indonésia e uma correspondente diminuição da pressão média da superfície, ou

                -diminuição de nebulosidade e chuva nas porções centrais e leste do Pacífico e um correspondente aumento na pressão média da superfície

 

                Nesta última quinta-feira o Climate Prediction Center da NOAA (CPC) juntamente com os previsores do International Research Institute for Climate and Society (IRI) soltaram uma nota técnica (http://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso_advisory/ensodisc.pdf) dizendo que estamos em La Niña Watch, ou seja, existe a possibilidade de formação. Em nenhum momento está descrito na nota que “vai formar” e muito menos que estamos sob tais condições.

                A imagem abaixo faz parte do documento descrito acima. Claramente vemos que existem águas mais frias do que o normal no Pacífico leste e central.

 

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Anomalia média da temperatura da superfície do mar no começo de setembro.

 

Podemos observar, ainda, que em profundidade (mapa abaixo) existe uma grande massa d’água fria por baixo da “mancha azul” do mapa acima. Porém, na porção mais oeste, não existem águas mais frias do que o normal. Levando em consideração a nossa experiência, como não existem águas mais frias a oeste, provavelmente não existirá condição para manter o Pacífico Equatorial mais frio do que o normal (abaixo de -0,5C) durante os próximos cinco meses, a não ser que surjam novas bolhas frias em profundidade.

Resumindo, não estamos em La Niña – isto é fato científico! Existe uma possibilidade de formação (La Niña Watch), mas devemos aguardar os próximos meses.

A maior parte dos modelos  dinâmicos não estão vendo esta condição. Devemos ter uma primavera com águas mais frias do que a média (até mesmo abaixo de -0,5), porém a tendência depois é de ligeiro aquecimento. O único modelo que vê condição diferente é o cfsV2 – o mesmo que há alguns meses dava como certa a formação de um El Niño para este inverno.

 

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Em média, os efeitos da La Niña para os meses de verão aqui no Brasil são:

 

- Chuva acima da média no norte do Nordeste e no leste da Amazônia

- Sudeste com temperaturas, em média, abaixo da normalidade.