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Alemanha é país que mais polui o ar na União Europeia

21/06/2016 às 15:19
por Redação

Um dia normal na Alemanha: indo de carro para o trabalho, passa-se por fábricas, usinas de eletricidade, campos cultivados. Se a janela está aberta, sente-se a desagradável irritação causada pela fumaça de escapamento ou o cheiro pungente dos fertilizantes.


A poluição no ar inspirado não é visível a olho nu: não se pode segurá-la na mão e avaliá-la, não se pode capturá-la nem isolá-la. Só se pode parar de produzi-la.

Dez Estados-membros da União Europeia, encabeçados pela Alemanha, continuam a emitir substâncias tóxicas demais na atmosfera. De acordo com um relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA), em 2014 o teto de emissão de poluentes foi excedido pelo país e também pela Áustria, Bélgica, França, Irlanda, Luxemburgo, Dinamarca, Finlândia, Holanda e Espanha.

Desde 2010 está em vigor na União Europeia a diretiva NEC (National Emission Ceilings Directive), que define tetos nacionais de emissões para quatro substâncias tóxicas. Desde então, a Alemanha nunca conseguiu manter-se dentro dos valores permitidos, além de ser o único país que ultrapassou três dos quatro índices estipulados.


Perigo de micropartículas no ar

As substâncias cujas concentrações no ar foram mensuradas são: óxidos de nitrogênio (NOx), compostos orgânicos voláteis não-metano (NMVOCs, na sigla em inglês), dióxido de enxofre (SO2) e amoníaco ou óxido de nitrogênio (NH3). Elas são responsáveis pela poluição por material particulado ou partículas em suspensão.

As partículas microscópicas em questão, medindo menos do que 10 micrômetros (10 milésimos de milímetro), se instalam nos brônquios e alvéolos pulmonares, e, dependendo de seu tamanho, podem chegar até o tecido pulmonar e a corrente sanguínea. Os riscos à saúde associados às partículas em suspensão são conhecidos: desde irritação da mucosa até bronquite crônica, doenças cardiovasculares e câncer de pulmão.

Em 2013, após analisar os dados da AEA, a ONG ambientalista Greenpeace alertou que a soma total das emissões de micropartículas da Alemanha provoca 28 mil mortes prematuras por ano. Então, por que os dez países simplesmente não se atêm aos limites definidos?

Sujeira do trânsito e da agricultura

A resposta está na origem dessas substâncias danosas à saúde e à natureza. Óxidos de nitrogênio e dióxido de enxofre escapam para o ar nos processos de combustão. Em primeiro lugar, no trânsito rodoviário, seguido da queima de combustíveis fósseis nas usinas termelétricas de carvão, por exemplo.

No caso do amoníaco (NH3), a agricultura, principalmente a pecuária intensiva e da fertilização de campos, é responsável por 95% de sua liberação na atmosfera. E, justamente na Alemanha, tanto o transporte rodoviário quanto a criação de animais são setores em forte crescimento.

Metade dos alemães possui um automóvel. Segundo estimativa do Ministério alemão dos Transportes, a frota nacional deve se expandir em pelo menos 10% até 2025. Enquanto isso, a produção de carne no país alcançou o recorde de 8,2 milhões de toneladas em 2014, segundo dados do Departamento Federal de Estatísticas. A alta ocorreu sobretudo no setor de avicultura, cuja produção triplicou nos últimos 20 anos.


Amoníaco, uma tendência preocupante

O perigo dos óxidos de nitrogênio na formação das partículas em suspensão já é admitido pelos políticos alemães. Espera-se que a introdução de "Blaue Plaketten" (plaquetas azuis), para os veículos com baixa emissão desses poluentes, ajude a diminuir a contaminação nas cidades.

O amoníaco, por sua vez, ainda não recebe a devida atenção. "Isso precisa mudar", reivindica Martijn Schaap, professor visitante da Universidade Livre de Berlim e especialista em amoníaco. "Muito está sendo feito para reduzir os óxidos de nitrogênio e o dióxido de enxofre, mas no caso do amoníaco há um atraso a ser recuperado, a fim de reduzir efetivamente as partículas em suspensão."

 

Essa tendência se reflete também nos números da Agência Europeia do Ambiente: enquanto a emissão dos poluentes relacionados ao trânsito, atividades domésticas e indústrias vem caindo desde 2010, continuam a aumentar as emissões de amoníaco ligadas à criação de animais em massa e ao uso de fertilizantes.


Soluções da ciência e hesitação da política

O poluente que emana das atividades agrícolas tem um papel decisivo na formação das micropartículas prejudiciais à saúde. "O amoníaco é uma base, e reage no ar com ácidos formados a partir dos óxidos de nitrogênio e dióxido de enxofre. Isso gera sais de amônio, que nas épocas de pico, na primavera, compõem a metade dos materiais particulados", explicou Schaap à DW.

Assim, é necessário diminuir as emissões dessas três substâncias tóxicas. "Existem recursos técnicos, para estábulos abertos e fechados, com o fim de conter o escape de amoníaco para a atmosfera. Na fertilização, a purina deve ser processada mais rápido", recomenda o especialista.

Uma pesquisa do Instituto para Estudos Avançados em Sustentabilidade (IASS), em Potsdam, propôs uma solução mais econômica: ração animal pobre em proteína. Ela corta o teor de nitrogênio no excremento dos animais e, consequentemente, a liberação de amoníaco. Outra medida a ser considerada é a redução do consumo humano de carne.

Enquanto a ciência já oferece sugestões concretas para minimizar as emissões de poluentes, os políticos ainda estão na fase de diálogo. Em comunicado à DW, o Ministério alemão do Meio Ambiente enfatizou a necessidade de "expandir o instrumentário de normas existente, a fim de baixar as emissões excessivas de nitrogênio de forma mais rápida e eficaz".

"A questão quanto a providências adicionais apropriadas também será tema importante de um diálogo de resultado em aberto com as partes interessadas, secretarias e governos estaduais, que iniciaremos no final de junho", complementou o órgão.

Portanto, até que se apresentem planos e regulamentos concretos, a Alemanha seguirá sendo o principal poluidor do ar na União Europeia.