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Mudança climática eleva perigo global de incêndios florestais

15/08/2016 às 14:52
por Redação

Incêndios florestais de proporções inusuais devastaram o Alasca e a Indonésia em 2015, assim como localidades no Canadá, nos Estados Unidos e na Espanha no ano corrente. Mal os bombeiros conseguiram debelar as chamas na Ilha de Madeira, na quinta-feira (11/08), e a região de Marselha, no sul da França, tornou-se a vítima mais recente do fogo.


                               Incêndio florestal em Funchal, na Ilha da Madeira

Esses fatos lançam a questão se a incidência de incêndios de grandes proporções de fato aumentou ou se se trata de uma impressão subjetiva, criada pela concentração da mídia nas más notícias e pela maior divulgação através das redes sociais.

Os dados científicos sugerem que, de fato, nas últimas décadas se elevou o número dos sinistros, sobretudo no oeste dos EUA. Segundo a ONG Union of Concerned Scientists (UCS), todos os estados da região registraram um aumento na média anual das ocorrências de fogo incontrolável.

Perigo cresce em escala global

Estudos abrangentes mostram que, desde as décadas de 1970 e 80, os incêndios silvestres no oeste dos EUA quase quintuplicaram. Eles têm, ainda, consumido áreas mais de seis vezes maiores do que antes, e sua duração é cinco vezes mais longa.

Além disso, nos últimos 40 anos a temporada dos incêndios – ou seja as estações do ano em que o potencial de risco é mais elevado – aumentou de duração em todo o mundo.


O climatólogo-chefe da UCS, James Funk, revela-se apreensivo com a tendência. "Nos EUA, o ano de 2015 quebrou recordes, com mais de 10 milhões de acres queimados. Isso equivale a 4 milhões de hectares, uma área do tamanho da Holanda ou da Suíça. É uma escala inédita na história recente, e isso é muito preocupante."

Contudo, as matas americanas não são as únicas sob ameaça crescente: a tendência é o fogo destruir áreas maiores por todo o planeta. "Nos anos recentes houve grandes incêndios na Sibéria e em outros lugares onde não é típico eles acontecerem." As projeções da UCS indicam ainda que, ao longo do século 21, desastres desse tipo podem se tornar de quatro a seis vezes mais graves do que são atualmente.

Segundo Funk, que pesquisa o impacto da mudança climática global sobre as paisagens naturais dos Estados Unidos, há provas científicas bem documentadas de que a mudança do clima do planeta tem aumentado a duração da temporada dos incêndios, a área incinerada e o número de desastres.

Chamas numa floresta em Les Pennes-Mirabeau, nas proximidades de Marselha, na França

Um cigarro ou um relâmpago

Em geral, os incêndios incontroláveis são iniciados acidentalmente por mão humana – por exemplo, ao se jogar um cigarro em brasa para fora da janela – ou têm causas naturais, como um relâmpago.

Esses "eventos de ignição" não determinam, porém, a escala do incêndio, ressalta Funk, mas as condições climáticas – mais quentes e secas desde que as emissões de gases poluentes e o consequente efeito estufa vêm elevando a temperatura global e alterando o clima.

Em consequência, a probabilidade de o fogo se alastrar aumenta, pois o calor maior eleva a evaporação, à medida que a atmosfera absorve mais umidade do solo. Nas regiões onde neva, o clima mais quente implica um degelo precoce, igualmente aumentando o período em que a terra é seca.

Assim, uma vez que os focos de fogo irrompem, eles se expandem mais rapidamente e consomem áreas maiores, alastrando-se de modo imprevisível. "Eles realmente ganham dimensões maiores e saem do controle com mais frequência do que no passado", confirma Funk.


Pestes florestais e insetos

Um efeito menos direto da mudança climática são os surtos de pragas florestais, que têm matado grande número de árvores, além de tornar as matas mais suscetíveis a incêndios, aponta Funk. "Sabemos que esses surtos de peste foram causados pela mudança climática porque não houve nada do gênero nos últimos 500, talvez até mil anos."

 

Por sua vez, os insetos aproveitam os verões prolongados, aumentando seus ciclos reprodutivos e acelerando a procriação, prossegue o climatólogo. Esse fenômeno coincide com os locais onde há um maior número de incêndios.

Embora se saiba que atividades como a exploração de madeira e a mineração também elevam a probabilidade de fogo incontrolável, grande parte das áreas afetadas nos últimos tempos é relativamente livre da influência humana. Segundo a UCS, isso confirma o papel da mudança climática nesse tipo de desastre.

Bombeiros tentam impedir que incêndio atinja residências no Curral dos Romeiros, na Ilha da Madeira

Fogo pode ser benéfico

Incêndios florestais não são necessariamente um mal. Na realidade, o fogo é parte natural e benéfica de muitos ecossistemas silvestres, sendo até indispensável à sua saúde.

Ao longo das décadas, a vegetação baixa cobre o solo das florestas e, ao eliminá-la, um incêndio abre espaço para árvores maiores, mais maduras e mais resistentes ao fogo.


No entanto, o acréscimo antinatural no número de incêndios vêm destruindo florestas inteiras, incontrolavelmente, com efeitos negativos para o meio ambiente e para os seres humanos.

Além de colocar em risco vidas, propriedades e infraestrutura, os grandes fogos recentes já apresentam significativo impacto sobre a saúde humana no Sudeste Asiático, cita Funk. E, ao matar plantas e animais, eles também acarretam perda de habitat.


Círculo vicioso dos gases-estufa

O maior problema, contudo, é a escala dessas catástrofes ter crescido ao ponto de elas próprias contribuírem seriamente para as emissões de gases-estufa. Uma vez aque as árvores absorvem e armazenam o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, quanto mais delas forem incendiadas, mais difícil será combater a mudança climática no futuro.


"Isso cria um círculo vicioso: o fogo aumenta as emissões, as quais, por sua vez, contribuem para mais aquecimento global, o qual causará mais incêndios", resume Funk. "Os incêndios não são o inimigo: eles são o resultado de um processo subjacente. Portanto precisamos encarar o problema em vez de seus sintomas."


Uma pesquisa do governo americano concluiu que áreas florestais úmidas são as mais expostas ao fogo silvestre, à medida que as condições locais se tornam mais secas e quentes devido ao aquecimento global.

As florestas mais vulneráveis ao fogo e à mudança climática se localizam na região boreal, estendendo-se por Alasca, Canadá, Escandinávia e Rússia. A mata boreal compõe quase um terço da terra florestada do mundo, desempenhando papel importante na absorção e no armazenamento de CO2.

Estudos mostram que as florestas russas e canadenses estão especialmente ameaçadas por incêndios, já que nessas regiões do Hemisfério Norte as temperaturas vão subindo com mais velocidade do que em outras partes do planeta. No entanto, Funk lembra que o perigo dos incêndios florestais é amplo, pois as temperaturas ascendentes estão transformando numerosas paisagens naturais em todo o planeta.