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Usar ou não a água da Billings?

03/02/2015 às 16:03
por Redação

por Maria Clara Machado

O anúncio que o Governo de São Paulo estuda a possibilidade de utilizar a água da Billings para evitar o racionamento na região metropolitana, trouxe dúvidas e questionamentos da população sobre a eficiência do tratamento desta água. A represa fica na zona sul da Grande São Paulo, mas apesar de sua enorme extensão é contaminada pelo esgoto. Seu volume atual armazenado é de cerca de 500 bilhões de litros, o equivalente a 51% do volume útil do Cantareira.  A obra emergencial  pretende interligar a Billings à Bacia do Alto Tietê até junho com a instalação de 13 quilômetros de dutos. Do Alto Tietê, a água será reutilizada para abastecer parte das zonas leste e norte da capital, diminuindo assim a dependência do Sistema Cantareira, que hoje está com 5,1% de sua segunda reserva técnica. O professor e coordenador do mestrado de Análise Geoambiental da Universidade de Guarulhos Reinaldo Romero Vargas, chama a atenção para as dificuldades e custos do tratamento da água da Billings e os impactos futuros. Confira:

Confira na íntegra a entrevista do Prof. Romero Vargas concedida a Climatempo.

Climatempo: O Comitê que gerencia a Bacia do Alto Tietê já afirmou a imprensa que a Sabesp tem tecnologia suficiente para limpar a água que será retirada da Billings. Essa descontaminação da água será uma coisa fácil? Ou envolve processos complexos e caros que poderão resultar num encarecimento na conta final de água?

Prof. Romero Vargas: Sim, eles têm tecnologia, só que o problema é a qualidade da água da Billings. Uma água bastante degradada devido à falta de saneamento básico no entorno da região, depósito de lixo. A história toda que já é conhecida. Em função dessa poluição acentuada, existe o crescimento de alga, a chamada cianobactérias que ficam no leito da superfície da represa.  A represa Billings é muito grande. Então existe o ponto de captação, onde já existe hoje, quando leva ela para o Guarapiranga, um ponto de captação dela é um ponto de captação melhor. Como ela já uma água comprometida, quanto mais degradada estiver essa água, maior vai ser o custo de tratamento dela.  A Sabesp tem essa tecnologia, estão ampliando a capacidade de tratamento, vai levar um tempo para que isso aconteça, cerca de quatro meses que foi comentado. Mas, uma coisa é claro, a sociedade cobra muito essa questão da qualidade. Cabe até a sociedade cobrar essa qualidade da água para a Sabesp. Como? Colocando no site deles, divulgando esses padrões, os chamados padrões de potabilidade da água. Para que isso fique claro para a sociedade. A dúvida é: essa água vai ter qualidade? Vão conseguir atender essa qualidade? O ideal seria divulgar isso para a sociedade para ter uma transparência para deixar a população mais tranquila. Tudo depende da eficiência da estação. Uma coisa que assusta é que conforme você vai retirando água da Billings você vai concentrando poluentes também e aí o tratamento da água vai ficando mais difícil e ainda mais caro. Vai mexendo inclusive na parte mais ao fundo, nos sedimentos e você agita mais ainda poluentes que estão no fundo, prejudica mais ainda a qualidade.

Climatempo: Já temos alguns casos acontecendo em São Paulo da água estar saindo marrom da torneira, como em Água rasa, na zona leste, que está sofrendo interrupção diária no abastecimento. Em Barretos, no interior, que enfrenta racionamento desde outubro de 2014, moradores reclamam que a água volta escura quando o abastecimento é reestabelecido. Qual a provável causa disso estar acontecendo e quais o riscos de utilizar essa água?

Prof. Romero Vargas: É fato que nesse processo todo, a gente consegue perceber essa diminuição da qualidade da água em termos de um odor diferenciado, coisa que não existia. Muito é devido a diminuição da pressão da tubulação. Muitas vezes até na estação de tratamento, ela consegue sair límpida, incolor, inodoro, que seria o certo. Mas quando diminuí a pressão, existe entra de ar, terra, sujeira. Por isso, em grande quantidade, a água acaba tendo um tom marrom.  Isso é muito da questão da redução da pressão. Tem a questão também dos vazamentos, pode acabar acontecendo contaminação.

Climatempo: Assim como as águas do Rio Tietê, a poluição da Billings vem de esgoto jogado direto no manancial, da ocupação irregular de suas margens e o acúmulo de lixo e detritos. O professor acredita que políticas anteriores para despoluir represas e rios de São Paulo poderiam ter evitado o problema que estamos enfrentando hoje?

Prof. Romero Vargas: Eu acredito sim. Nós fazemos trabalhos em várias regiões metropolitanas e infelizmente o descaso é tão grande que nós analisamos fontes, bicas, onde a água sai potável, de qualidade inquestionável e poucos metros depois, poucos metros depois mesmo, como essas regiões são ocupadas de forma irregular, depois ela já começa a receber o esgoto e já está totalmente degradada. Então, se fosse respeitado mesmo as áreas de preservação permanente, os mananciais, hoje teríamos certamente a possibilidade de pegar água de vários outros rios.

Climatempo: Parte do volume da Billings é utilizada para geração de energia elétrica na Usina de Henry Borden, em Cubatão, na Baixada Santista. A retirada da água para a Bacia do Alto Tietê pode prejudicar essa geração para Cubatão? Prof. Romero Vargas: Na verdade o desnível ali, a queda para Cubatão é muito grande. A quantidade de água caindo ali vai ter uma energia cinética e potencial muito grande, mas é fato, tudo é questão da quantidade. Até que ponto, quanto vai ser retirado de água da Billings? Você vai diminuindo a quantidade, porque realmente a situação está extremamente crítica. Vai prejudicar inclusive a geração de energia. Pode acontecer, tudo vai depender da quantidade que vai ser retirado de lá.   Já conhece nossa campanha BR: vida sem água? Participe e dê seu depoimento.