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Clima e Previsão do Tempo/Notícias/El Niño/Entenda a chuvarada e o frio no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026

Entenda a chuvarada e o frio no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026

Em apenas 15 dias, 6 frentes frias influenciaram o centro-sul do Brasil provocando excesso de chuva e baixas temperaturas. Saiba o fenômeno que causou o excesso de frente frias na primeira quinzena de setembro de 2026 e a relação com o El Niño.

Josélia Pegorim

16/09/2026 às 13:31

Imagem da notícia Entenda a chuvarada e o frio no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026
Centro-sul do Brasil teve excesso de chuva e baixas temperaturas na primeira quinzena de setembro de 2026 (Foto: Getty Images)

A associação imediata com El Niño no Sudeste e no Centro-Oeste é principalmente com o aumento do calor. Na Região Sul, o impacto mais comum é o aumento da chuva. Mas com o frio que fez na primeira quinzena de setembro e a chuva batendo recordes na Região Sudeste e em áreas do Centro-Oeste, onde normalmente não chove muito em setembro, fica difícil entender as influências climáticas desse fenômeno global.

Em apenas 15 dias, 6 frentes frias influenciaram o centro-sul do Brasil. A mais recente começou a avançar pela costa da Região Sul no dia 15 de setembro. Como explicar tanta chuva e as baixas temperaturas no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026? Por que o excesso de frentes frias? A culpa é do El Niño ou outros fenômenos meteorológicos atuaram junto para causar uma situação tão fora do normal, como observada na primeira quinzena de setembro de 2026?

Setembro é época de pouca chuva no Brasil

Historicamente setembro ainda é um mês de poucas precipitações na maior parte do Brasil. O mapa mostra a distribuição das médias de precipitação no Brasil para setembro, calculadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia para o período de 1991 a 2020.

Climatologia de precipitação no Brasil em setembro

Climatologia de precipitação no Brasil em setembro (Fonte: INMET)

Em praticamente todas as áreas do Sudeste, do Centro-Oeste, nos estados do Tocantins, Pará e Amapá e em toda Região Nordeste do Brasil, as médias históricas de precipitação ficam abaixo de 100 mm. Isto é indicado pelos tons de amarelo e laranja no mapa. Médias de 100 a pouco mais de 200 mm (tons de verde) são encontradas no Sul do Brasil em poucas áreas da divisa de São Paulo com o Paraná, no sul de Mato Grosso do Sul, em áreas do norte de Rondônia no Acre, no Amazonas e em Roraima.

Chuva muito acima do normal na primeira quinzena de setembro de 2026

O que se viu na primeira quinzena de setembro de 2026 foi uma quantidade de chuva absolutamente excepcional. Volumes de chuva de 200 a 300 mm foram observados de forma generalizada no leste do Paraná, no sul e leste de São Paulo e no litoral sul do Rio de Janeiro. Em muitas áreas do centro-sul fluminense, incluindo a cidade do Rio de Janeiro, choveu de 100 a 150 mm. Na Zona da Mata Mineira, muitas áreas registraram de 90 a quase 130 mm. No Sul de Minas Gerais choveu de 100 a quase 150 mm em vários locais.

Outra região que também teve chuva bastante volumosa na primeira quinzena de setembro de 2026 foi o centro-sul de Mato Grosso do Sul. As medições por institutos oficiais e confiáveis mostraram volumes de chuva de 70 a pouco mais de 120 mm, de forma generalizada. Na região da capital Campo Grande choveu até cerca de 170 mm.

Muitas áreas de Santa Catarina acumularam de 100 a 130 mm na primeira quinzena de setembro de 2026, mas em alguns locais choveu de 160 mm a quase 200 mm. É o caso de Chapecó, onde choveu 194,8 mm, pela medição do Instituto Nacional de Meteorologia, praticamente igualando a média de chuva normal para este mês, que é de aproximadamente 200 mm.

Como explicar tanta chuva na primeira quinzena de setembro no centro-sul do Brasil? É culpa do El Niño?

Chuva e frio

Além da chuva frequente e volumosa, a baixa da temperatura também foi marcante no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026. Um exemplo foram as temperaturas observadas na cidade de São Paulo. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia, em 15 dias a temperatura máxima na capital paulista superou a marca dos 25°C apenas três vezes, que é a média normal de temperatura máxima para este mês. Na cidade do Rio de Janeiro, a temperatura muito abaixo do normal chamou ainda mais a atenção. Em 15 dias, os cariocas só tiveram temperatura igual ou superior a 30°C em 2 dias. No dia 7 de setembro a temperatura máxima na capital fluminense foi de apenas 19°C, a menor máxima de 2026 até agora.

As baixas temperaturas e o excesso de chuva no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026 foram provocadas por uma combinação de fatores:

  • pela passagem de várias frentes frias, que trouxeram a chuva e o ar frio de origem polar;
  • o desenvolvimento de extensas áreas de baixa pressão atmosférica entre o Sul do Brasil o Paraguai, o Mato Grosso do Sul e São Paulo;
  • grande dose de umidade e calor sobre São Paulo, Mato Grosso do Sul e Paraná, por causa do posicionamento do jato de baixos níveis, corrente de ar quente e úmido que vem da Amazônia e que esteve fortemente direcionada para estes estados na segunda semana de setembro;
  • passagem de cavados atmosféricos, que são ondulações no fluxo de ventos no sentido horário, também contribuíram para a formação e manutenção das grandes áreas de chuva sobre o centro-sul do Brasil;

A combinação da falta do sol, por causa do excesso de nebulosidade, chuva frequente e com o ar polar trazido pelas frentes frias mantiveram a temperatura baixa no centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro

Excesso de frentes frias: culpa da AAO negativa

Passagem de frentes frias pelo centro-sul do Brasil em setembro não é incomum, porém, 5 frentes frias em apenas 15 dias é muito fora do normal. É aí que está a chave da explicação para tanta chuva na primeira quinzena de setembro.

  • A culpa da passagem de tantas frentes frias pelo centro-sul do Brasil está na fase negativa do fenômeno chamado de Oscilação Antártica, comumente abreviada como AAO. A fase negativa da AAO, que facilita o deslocamento das frentes frias da Antártida para a América do Sul, foi se configurando em agosto e refletiu no comportamento da chuva e da temperatura sobre o centro-sul do Brasil na primeira quinzena de setembro de 2026.

O que é a AAO?

A Oscilação Antártica é uma relação entre o comportamento dos ventos e da pressão atmosférica observadas entre a Antártida e a região sul da Patagônia, no sul da América do Sul.

A Oscilação Antártica (AAO) é um fenômeno meteorológico que não tem uma duração regular podendo atuar no mesmo padrão por algumas semanas a alguns meses. Os modos de atuação são chamados pelos meteorologistas de fase negativa e de fase positiva e interferem no deslocamento das frentes frias da Antártida em direção à América do Sul.

  • Saber em que fase está a AAO, e por quanto tempo a mesma fase vai atuar, é muito importante na previsão do tempo de médio e longo prazo (de 15 dias a 1 mês), porque isso interfere na quantidade de frentes frias que poderá chegar ao Brasil e, consequentemente, no comportamento da chuva e a temperatura.

Características da fase negativa e da fase positiva da AAO

Na fase positiva da AAO, a pressão atmosférica fica relativamente mais alta nas latitudes médias, região do sul da Patagônia, e relativamente mais baixa sobre a Antártica. Isso fortalece os ventos de oeste e mantém a maioria das frentes frias e dos ciclones extratropicais mais ao sul, mais próximas da Antártida, dificultando o avanço das frentes frias para o Brasil.

Na fase negativa da AAO, ocorre o contrário: a pressão atmosférica fica relativamente mais baixa no sul da Patagônia e mais alta sobre a Antártida. Os ventos de oeste enfraquecem, ou ficam mais ao norte, mais próximos da América do Sul, favorecendo o avanço de frentes frias e das massas de ar polar para o Brasil.

Quando os ventos de oeste enfraquecem sobre a Antártida, as massas de ar frio podem se deslocar com maior frequência em direção à América do Sul. Isso quer dizer mais frentes frias avançando sobre a América do Sul e podendo chegar ao Brasil.

Relação entre o El Niño e a Oscilação Antártica

Vários estudos científicos mostraram que a fase negativa da Oscilação Antártica (que facilita o deslocamento das frentes frias para a América do Sul) fica mais frequente em anos de El Niño.

Em agosto de 2026, o El Niño já era considerado de forte intensidade e muito forte no começo de setembro. A previsão para os próximos meses é que o aquecimento continue aumentando na porção central e leste do Pacífico Equatorial, ao largo da costa do Peru e do Equador, que é a região oceânica onde se avalia a intensidade deste fenômeno.

Com o fortalecimento do El Niño, devendo atingir seu máximo entre meados da primavera de 2026 e o começo do verão 2026/202, a fase negativa da Oscilação Antártica tende a intensificar. Os períodos de fase negativa da AAO podem ser mais frequentes na primavera e isso vai refletir em novos episódios de chuva volumosa no centro-sul do Brasil. Não necessariamente sempre sobre o Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, como ocorreu na primeira quinzena de setembro, mas estes estados vão continuar sujeitos a novos episódios de chuva atípica.

Previsão para segunda quinzena de setembro de 2026

A tendência é de que no decorrer da segunda quinzena de setembro, a oscilação Antártica vá mudando para a fase positiva. Isso deve diminuir a frequência das frentes frias que vão chegar ao Brasil. Mesmo assim, a expectativa é de que vários episódios de chuva vão continuar ocorrendo sobre o centro-sul do Brasil, com as pancadas de chuva se espalhando pelo interior do Sudeste e sobre o Centro-Oeste do Brasil.

O Sul do Brasil terá novos episódios de chuva frequente e volumosa, especialmente sobre os estados do Paraná e de Santa Catarina.

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