Texto escrito e revisado pelas Meteorologistas Priscilla Amaral e Jade Ramos
O mês de fevereiro de 2026 vem sendo caracterizado por um aumento significativo das chuvas em diversas áreas do Nordeste brasileiro. Embora em muitos momentos as precipitações ocorram de forma isolada, com temporais típicos de verão, a atuação de sistemas meteorológicos tem favorecido volumes significativos de chuva nas capitais, mas principalmente no interior da região.
Entre os principais sistemas responsáveis estão a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), posicionada mais ao sul neste período, favorecendo chuvas ao longo de grande parte da costa nordestina e o Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), que tem contribuído para a distribuição das precipitações no interior da região.
O Instituto Nacional de Meteorologia registrou alguns acumulados que chamaram mais atenção nos primeiros dias do mês de fevereiro. Em Carolina, no Maranhão, foram 103 milímetros acumulados ao longo dos três dias, sendo 67 milímetros registrados apenas no domingo, dia 8 de fevereiro. Ainda nesta data, a chuva ocorreu de forma mais abrangente em praticamente todo o Nordeste. Entre as cidades que registraram volumes mais significativos nesse dia, o destaque é para Caicó (RN), Teresina (PI) e Surubim (PE).
Maiores acumulados de chuva nas capitais
Entre os dias 1° e 10 de fevereiro, os acumulados de chuva ultrapassaram os 100 mm em algumas capitais, conforme dados do Inmet e do Cemaden:
- Fortaleza (CE): 147,4 mm
- João Pessoa (PB): 137,4 mm
- Teresina (PI): 122,2 mm
- Recife (PE): 122 mm
- São Luís (MA): 69 mm
- Natal (RN): 61,8 mm
- Salvador (BA): 52,6 mm
- Aracaju (SE): 43,6 mm
Em grande parte das capitais, o volume registrado nos primeiros dez dias de fevereiro já supera o total acumulado em todo o mês de janeiro, com exceção de São Luís e Natal. Além das capitais, áreas do interior, especialmente no Rio Grande do Norte e em Pernambuco, também registraram acumulados elevados, resultando em impactos relevantes como transtornos urbanos e danos à infraestrutura.
Previsão do tempo para os próximos dias: continuidade das instabilidades na região
Entre os dias 11 (quarta) e 12 (quinta), o deslocamento da ZCIT favorece pancadas de chuva no litoral do Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão, com destaque para o litoral potiguar, incluindo Natal, onde a chuva pode ocorrer de forma recorrente. Simultaneamente, o posicionamento do VCAN em alto mar, avançando gradualmente sobre o continente, favorece temporais no interior do Nordeste, com maiores acumulados previstos para:
- Sudoeste e centro-sul do Maranhão,
- Centro-sul e oeste do Piauí,
- Oeste da Bahia.
Entre os dias 13 (sexta) e 15 (domingo), com a maior atuação do VCAN sobre o continente, as pancadas de chuva se concentram no interior da Paraíba, Pernambuco, sudeste do Piauí, sul do Ceará e interior do Maranhão, enquanto no litoral as chuvas tendem a ocorrer de forma mais isolada em cidades como Maceió, Recife, João Pessoa e Natal. Além disso, a semana do Carnaval começa com temporais mais intensos entre a madrugada de 15 (domingo) e 16 (segunda-feira) , principalmente no interior do Piauí e do Maranhão, afetando especialmente Teresina. Ao longo da semana, as instabilidades persistem em praticamente toda a região, ainda que de forma mais localizada. Além disso, as temperaturas seguem elevadas, com tempo abafado, máximas próximas de 30°C no litoral e acima disso em áreas do interior.
Impactos no sistema elétrico do nordeste
Diante do cenário meteorológico, as distribuidoras de energia elétrica têm operado sob planos de contingência, com reforço de equipes, especialmente em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, para garantir a continuidade do fornecimento e a rápida resposta a ocorrências.
Entre os dias 1º e 10 de fevereiro, foram registrados uma quantidade significativa de descargas elétricas:
- Ceará: 30.245 raios nuvem-solo
- Pernambuco: 27.128 raios nuvem-solo
- Rio Grande do Norte: 7.600 raios nuvem-solo
- Alagoas: 3.004 raios nuvem-solo
Essas descargas elétricas elevam significativamente o risco de desligamentos, danos a equipamentos e interrupções no fornecimento, exigindo monitoramento constante e resposta rápida por parte das concessionárias. Além disso, as chuvas volumosas também comprometem a rede de distribuição, aumentando o risco operacional e a exposição das equipes de campo.
Efeitos na geração de energia renovável
Do ponto de vista da geração de energia, os estados do Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia, importantes polos de energias renováveis no país, também vêm sofrendo impactos relevantes. Durante este período mais chuvoso, observa-se uma redução na velocidade dos ventos, o que afeta diretamente a geração eólica, reduzindo temporariamente a produção de energia.
Essa condição reforça a importância da integração entre meteorologia e gestão do setor elétrico, uma vez que a previsibilidade das condições atmosféricas é essencial para o planejamento da operação, segurança das equipes, manutenção da infraestrutura e garantia da confiabilidade do sistema.
Esse cenário reforça o papel estratégico da previsão do tempo no setor elétrico. Informações meteorológicas precisas e atualizadas permitem antecipar riscos, otimizar a alocação de equipes, planejar manutenções, reduzir a exposição dos trabalhadores a condições perigosas e mitigar impactos na geração e na distribuição. Em um sistema cada vez mais dependente de fontes renováveis e sensível às variações de tempo, integrar meteorologia e gestão energética deixou de ser diferencial e passou a ser requisito para a confiabilidade e a segurança do setor.




