por Rennan Barbosa, meteorologista da Climatempo
Com a ocorrência de chuvas expressivas ao longo do mês de fevereiro nos reservatórios do Sistema Cantareira, os acumulados observados ficaram acima da média climatológica para o período. No total, o sistema registrou 244,8 mm de precipitação no mês, enquanto a média histórica para fevereiro é de 200,8 mm. Isso significa que o volume observado ficou 17,97% acima da média climatológica. Mesmo assim, o cenário ainda segue preocupante. Faltando cerca de uma semana para o fim do verão, o sistema atingiu apenas 40% de armazenamento.
Segundo análise do meteorologista Rennan Barbosa, mesmo com as chuvas acima da média em fevereiro, a recuperação dos reservatórios foi limitada devido ao desempenho irregular ao longo dos meses nesta estação chuvosa ao longo dos meses e anos anteriores.
Situação atual do reservatório
De acordo com os dados mais recentes divulgados pela SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), em 13 de março, o reservatório opera com 40,3% da sua capacidade total de armazenamento. O valor chama atenção quando comparado ao mesmo período do ano passado, quando o nível estava em 59%, indicando uma redução significativa no volume armazenado.
Essa diferença de quase 20 pontos percentuais evidencia um cenário preocupante para o sistema, principalmente porque março ainda está dentro do período úmido, quando os reservatórios normalmente apresentam recuperação.

Evolução do volume de água útil armazenado no Sistema Cantareira de janeiro a 13 de março de 2026
A recuperação do nível do Sistema Cantareira após episódios de chuva costuma ser mais lenta do que se imagina. A razão está em alguns processos hidrológicos básicos que controlam como a água realmente chega aos reservatórios.
Os principais fatores que controlam a recuperação do nível de armazenamento são:
Déficit hidrológico acumulado
Mesmo que em um mês tenha chuva acima da média, como ocorreu em fevereiro de 2026, o sistema pode estar compensando meses anteriores de chuva abaixo do normal. Nesse caso, a chuva recente reduz o déficit, mas não reflete imediatamente na elevação do nível de água armazenada.
Nem toda chuva não vira água dentro do reservatório
Quando chove sobre a bacia, a água segue vários caminhos:
- uma fração infiltra no solo
- outra parte evapora
- apenas uma parte escoa pelos rios até os reservatórios
Esse processo de escoamento superficial e subsuperficial demora alguns dias para refletir no aumento do volume de água armazenado.
Chuvas no lugar certo
- as chuvas intensas na capital paulista não impactam as represas que estão na divisa com o Sul de Minas Gerais
- a recuperação do sistema depende principalmente da chuva frequente e persistente exatamente nessas áreas
Consumo e operação do sistema.
Enquanto a água entra lentamente, o sistema continua liberando água para abastecimento. Ou seja, a recuperação depende do balanço entre:
- água que entra (vazão afluente)
- água que sai (retirada para abastecimento)
- se as entradas ainda são modestas, o nível sobe devagar.
O que esperar para as próximas semanas?
De acordo com Isabella Lima, meteorologista e consultora da Climatempo, ainda são esperados alguns eventos de chuva até o fim de março, embora a tendência seja de redução gradual dos volumes ao longo das próximas semanas. O mês de abril ainda reserva chuvas relativamente frequentes, mas a partir de maio, a expectativa já é de pouca contribuição das chuvas para a elevação dos níveis do Sistema Cantareira, uma vez que a região Sudeste entra no período seco.
O cenário atual é de atenção! A qualidade da estação chuvosa não foi satisfatória, principalmente entre novembro e janeiro, quando os volumes ficaram abaixo do ideal em diversas regiões. Como consequência, o nível de armazenamento observado hoje está inferior ao registrado no mesmo período dos últimos três anos, 2023, 2024 e 2025. Além disso, há indicação de possível configuração de um evento de El Niño no segundo semestre de 2026. Esse padrão climático costuma favorecer chuvas irregulares em algumas áreas do país e temperaturas mais elevadas.

Evolução do volume útil de água armazenada no Sistema Cantareira de janeiro de 2022 a março de 2026
Risco para os próximos meses
Climatologicamente o período chuvoso na região Sudeste ocorre entre outubro e março. A partir de abril, a região entra gradualmente na estação seca, que se estende até o início da primavera. Por isso, os volumes de chuva tendem a diminuir naturalmente nos próximos meses, reduzindo a reposição natural de água nos reservatórios.
Caso o Sistema Cantareira não alcance níveis mais elevados, como mostram as previsões da Climatempo, a operação durante o período de estiagem ficará comprometida e desafiadora.



