Fenômenos oceânicos- atmosféricos como El Niño e La Niña ocorrem de forma periódica e interferem no regime de chuva, no padrão de temperatura e de ventos de diversas regiões do nosso planeta. A intensidade dos impactos no clima global dependem da intensidade desses fenômenos e da interação com outros padrões de teleconexão, que podem interferir em uma ou mais estações do ano num determinado país.
No Brasil, o fenômeno El Niño deixa o ar mais quente e faz com que a chuva ocorra de forma irregular, na maior parte do país. Mas o ninho aumenta a chuva no Rio Grande do Sul e também no extremo norte do país. O La Niña facilita a formação de corredores de umidade e da ZCAS – Zona de Cconvergência do Atlântico Sul, que proporciona chuva volumosa para muitas áreas do Norte, do Centro-Oeste e do Sudeste do país. Por outro lado, áreas da região Sul ficam mais sujeitas a períodos de estiagem prolongada.
- El Niño: fenômeno caracterizado pelo aquecimento, por vários meses consecutivos, da porção central e leste do oceano Pacífico Equatorial, na altura da costa do Peru.
- La Niña: fenômeno caracterizado pelo resfriamento, por vários meses consecutivos, da porção central e leste do oceano Pacífico Equatorial, na altura da costa do Peru.
Uma das maiores preocupações com El Niño é o aumento dos eventos de temporais severos, porque o ar e o oceano ficam mais quentes. Os dois anos mais quentes já registrados no planeta Terra, desde as medições do período pré-industrial (1850 a 1900), foram 2024 e 2023, de acordo com análises dos principais centros de monitoramento do clima global. O ano de 2025 foi considerado o terceiro mais quente já registrado. Os anos de 2024 e 2023 foram marcados por um forte El Niño. O programa de monitoramento climático da União Europeia, Copernicus, avaliou que, em 2025, a Antártida teve a maior média de temperatura anual já registrada.
O que esperar para o ano de 2026?
O fraco fenômeno La Niña que se formou no oceano Pacífico Equatorial, em meados da primavera de 2025, teve pouco impacto no início do verão de 2026 e tende a enfraquecer cada vez mais até fevereiro. Mas já na primavera de 2025, as análises de longo prazo dos principais centros de monitoramento do clima global, apontavam para o desenvolvimento de um novo episódio de El Niño durante o ano de 2026. Esta tendência vem ganhando força nas análises mais recentes. Qual a intensidade que está sendo esperada para o El Niño 2026? Quais as possíveis alterações climáticas que o Brasil pode ter este ano, considerando a influência de um El Niño? A Climatempo apresenta, a seguir, um panorama preliminar do clima no Brasil em 2026, feitas pelo meteorologista Vinícius Lucyrio, da equipe de previsão climática da Climatempo.
2026, um ano com El Niño
Quando o novo El Niño deve se formar? A intensidade do fenômeno pode ser comparada com algum evento recente?
Vinícius Lucyrio (VL) – O El Niño deste ano deve se desenvolver entre o final do outono e início do inverno. O aquecimento começa antes, já a partir de março. Possivelmente o El Niño 2026 será semelhante ao de 2023, com início acelerado. A expectativa é de que seja um evento, no mínimo, com moderado a forte intensidade. As projeções oficiais mais recentes da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional/EUA), já indicam probabilidade maior de um El Niño moderado ou mais intenso do que de um evento forte, para o período agosto, setembro e outubro. Normalmente o pico costuma ser entre novembro e janeiro.
Efeitos no atual período chuvoso do Sudeste e do Centro-Oeste
VL – Esse aquecimento prévio no Pacífico Equatorial, na região do Niño 1+2 e Niño 3, que são as áreas oceânicas mais próximas do litoral do Peru, pode estender um pouco o período chuvoso no Sudeste e Centro-Oeste até meados para o final de abril.
Influência do El Niño no período frio
VL – O começo do período frio deve ter o maior número de incursões de ar frio com maior abrangência sobre o Brasil, mas essa chance diminui gradualmente a partir de julho com o desenvolvimento mais consistente do El Niño e acoplamento das condições oceânicas com a atmosfera. Então, o final do inverno e a primavera de 2026 tendem a ter extremos de calor e tempo seco. Isto mostra uma certa similaridade com as condições de 2023, no sentido de que poderemos ter grandes, frequentes, longas e intensas ondas de calor em grande parte do interior do Brasil.
Impactos no Sul do Brasil
VL – O Sul do país fica mais tempestuoso e mais nublado já no inverno. Mas eventos de chuva abrangente, com risco de enchentes, além dos fortes temporais e CCMs (Complexos Convectivos de Meso Escala) tendem a aumentar expressivamente na primavera. Parte desta instabilidade da Região Sul poderá ser sentida também nos estados de Mato Grosso do Sul e São Paulo.
Influência no nível dos rios da Amazônia
VL- Na Amazônia, a cheia dos rios em 2026 deve ser maior que a de 2025, seguida por um período de vazante muito mais acentuado. Mas ainda não dá para afirmar se isso vai comprometer a navegabilidade dos rios da região. É bem provável que tenhamos longos e fortes períodos de calor e tempo seco por lá.
Como o El Niño 2026 poderá impactar o próximo período úmido?
VL – É provável que o início do próximo período úmido ‘engane’ em algumas regiões. Poderemos ter algumas pancadas de chuva atípicas entre agosto e setembro no Brasil Central, sudeste do Pará, Minas Gerais, São Paulo e no interior nordestino. Mas isso não indicará o retorno da chuva e muito menos a regularidade. O começo do próximo período de chuvas deve ter um padrão muito irregular e insuficiente para repor a umidade do solo e dos reservatórios, o que pode levar a problemas de abastecimento, geração de energia hidrelétrica e instalação de algumas culturas.




