Texto escrito por Carine Gama, meteorologista da Climatempo.
Chuva forte no Rio Grande do Sul e El Niño: entenda a relação
Fenômeno está em rápido fortalecimento e começa a influenciar os padrões atmosféricos no Brasil, mas outros fatores também são importantes para o período de tempo severo nos próximos dias..
As fortes chuvas que voltam a atingir o Rio Grande do Sul nesta segunda quinzena de julho levantam uma dúvida comum: os temporais já são consequência do El Niño?
Ainda é precoce atribuir o cenário atual exclusivamente ao fenômeno. O El Niño está em fase de desenvolvimento e começa a exercer influência sobre os padrões atmosféricos na América do Sul. No entanto, essa atuação ainda é limitada, pois o fenômeno continua em processo de intensificação e ainda não apresenta plenamente o acoplamento entre as condições oceânicas e atmosféricas típico de um El Niño consolidado.
Por isso, não é correto afirmar que o evento extremo previsto para o Rio Grande do Sul será causado exclusivamente pelo El Niño. Episódios de chuva intensa dependem da combinação de diferentes sistemas meteorológicos de curto prazo e podem ocorrer em qualquer fase do ENOS.
O El Niño atua como um fator de fundo, favorecendo gradualmente um padrão atmosférico mais propício à ocorrência de chuva acima da média na Região Sul.
À medida que o fenômeno evoluir, especialmente a partir da primavera, essa influência deverá se tornar mais evidente. Com isso, aumenta a probabilidade de episódios de chuva persistente e de volumes acima da média na região.

Sistemas meteorológicos presentes durante o evento de tempestades severas previstos entre 16 e 25 de julho de 2026.
Por que vai chover e ventar tanto no Rio Grande do Sul?
O período de tempo severo previsto para o estado entre os dias 16 e 25 de julho será provocado pela combinação de diversos ingredientes atmosféricos.
Entre os principais fatores estão:
- frente semi-estacionária no Sul do Brasil;
- formação de uma área de baixa pressão atmosférica;
- forte transporte de umidade vindo da Região Norte;
- atmosfera muito aquecida antes da chegada do sistema frontal;
- formação de bloqueio atmosférico no Brasil central;
- início da influência do El Niño, que, como plano de fundo, favorece episódios de chuva mais frequentes e persistentes na região.
Portanto, não é correto atribuir toda a chuva apenas ao El Niño. Ao mesmo tempo, não é possível ignorar que o fenômeno já começa a tornar o ambiente atmosférico mais favorável à ocorrência de eventos extremos.
O que esperar da segunda quinzena de julho?
O Rio Grande do Sul entrará em um período prolongado de instabilidade, com vários dias consecutivos de risco de chuva forte, temporais, granizo, rajadas de vento e elevados acumulados de precipitação.
Esse padrão exige monitoramento constante, principalmente nas áreas mais vulneráveis a alagamentos, deslizamentos e cheias de rios.
A previsão indica volumes totais de chuva entre 200 e 400 mm no Rio Grande do Sul entre os dias 16 e 25 de julho.

Acumulado de chuva previsto entre 16 e 25 de julho de 2026.
O que muda com o El Niño?
Historicamente, durante anos de El Niño, o Sul do Brasil apresenta maior frequência de frentes frias estacionárias, aumento dos volumes de chuva e maior risco de temporais e enchentes, especialmente entre o inverno e a primavera.
Em julho, normalmente já chove bastante na Região Sul em comparação com outras áreas do país. Com o fortalecimento do El Niño, porém, essa característica tende a se intensificar.
A influência do fenômeno aumenta a chance de eventos prolongados de precipitação e de acumulados elevados, especialmente durante o seu ápice, previsto para a primavera.




