A Amazônia é realmente o pulmão do mundo?

30/08/2019 às 16:33
por Redação

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Afirmação é equivocada. Ainda assim, devastação da floresta pode ter consequências desastrosas para o clima global

Um equívoco amplamente divulgado: "A Amazônia – o pulmão do planeta que produz 20% do nosso oxigênio – arde em chamas", escreveu o presidente francês, Emmanuel Macron, em sua conta no Twitter. O jogador Cristiano Ronaldo também endossou a afirmação de que a floresta na América do Sul seria responsável pela produção de 20% do oxigênio global.

 

A Amazônia é, de fato, um ecossistema importante para todo o mundo, mas chamá-la de pulmão do planeta é equivocado. A suposição de que faltaria oxigênio no mundo devido às queimadas da floresta não é correta, afirma Niklas Höhne, professor da Universidade de Wageningen, na Holanda, especialista em redução de gases do efeito estufa. Os incêndios, porém, são perigosos para o clima.

 

Florestas, incluindo a Amazônica, absorvem dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e, através da fotossíntese, convertem esse CO2 em moléculas de açúcar ou glicose, que se espalham pela planta, e em oxigênio, que é devolvido à atmosfera. À noite, quando não há luz, esse processo é inverso.

 

No balanço, mais CO2 é consumido do que produzido, porque ele é armazenado pela floresta.

Por ser um sistema complexo com muitas plantas e micróbios, a Amazônia produz menos oxigênio do que, por exemplo, campos, como os pampas e savanas. Ao mesmo tempo, florestas e solos absorvem dióxido de carbono, embora os oceanos armazenem uma quantidade maior.

 

"As florestas e os solos absorvem em todo o mundo cerca de um terço das emissões de CO2 produzidas por humanos, sendo a Amazônia responsável por um sexto desse montante, ou seja, a Amazônia absorve 5% das emissões provocadas pela ação humana", afirma Höhne, que integra também o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

 

Segundo uma análise do Instituto de Pesquisa sobre o Impacto Climático de Potsdam (PIK), a Floresta Amazônica armazena em sua biomassa e solo entre 290 bilhões e 440 bilhões de toneladas de CO2, ou seja, entre 290 e 440 gigatoneladas, por isso é tão importante para o clima da Terra.

Apesar de não impactar na quantidade de oxigênio, a situação é alarmante. Höhne ressalta que a destruição da floresta tem efeitos devastadores. "O desmatamento transformou a Amazônia num grande emissor de CO2. As emissões chegam a até uma ou duas gigatoneladas de CO2 por ano. Isso é muito se considerado que as emissões de gases do efeito estufa global são cerca de 50 gigatoneladas", acrescenta.

 

De acordo com a especialista em Amazônia do PIK, Kirstin Thonike, 20% dos 5,3 milhões de quilômetros quadrados da floresta já foram desmatados. Essa área é maior do que toda a União Europeia (UE), que possui 4,4 milhões de quilômetros quadrados. "Essa perda levou a um aquecimento de 0,8 °C e 0,9 °C na região, além de aumentar o período da seca", afirma Thonike.

Os incêndios são devastadores para a biodiversidade e para os moradores da região, incluindo os povos indígenas.

 

De acordo com Höhne, se a Amazônia continuar sendo desmatada, pode-se chegar a um limite irreversível, causando uma mudança em todo o clima da região que será irreparável. O especialista teme que ocorra uma diminuição significativa na quantidade de chuvas e que a Região Amazônica seque. "Assim, não é só a Amazônia que está em perigo, mas também todo o abastecimento de água da região, incluindo a cidade de São Paulo, onde vivem cerca de 20 milhões de pessoas", ressalta.

 

"Começa a chover cada vez mais tarde no outono. Se continuar assim, resultará em uma extinção em larga escala. A quantidade de carbono liberada nesse processo seria tão grande que afetaria diretamente o clima", destaca Thonike. A essa altura, então, os efeitos da devastação da floresta seriam sentidos em todo o mundo.

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