É possível contrair o coronavírus mais de uma vez?

27/08/2020 às 06:10
por Redação

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Reinfecções em Hong Kong, Holanda e Bélgica lançam dúvidas sobre possibilidade de imunidade permanente contra covid-19.

No decorrer da pandemia de covid-19, tem-se tido notícias de possíveis reinfecções. Na maioria dos casos, porém, elas foram atribuídas a falhas nos procedimentos de exame, falsos negativos ou restos virais do primeiro contágio. Agora, no entanto, há reinfecções documentadas de Hong Kong, Holanda e Bélgica. Nos três casos, pacientes já recuperados foram infectados meses mais tarde, ao que tudo indica, por uma mutação do vírus Sars-Cov-2.

 

O indivíduo de Hong Kong, de 33 anos, apresentou leves sintomas de covid-19 em meados de março, no dia 26 seu exame deu positivo. Ele permaneceu hospitalizado até 14 abril, quando recebeu alta, após dois testes negativos.

 

O segundo contágio provavelmente ocorreu durante uma viagem de negócios à Espanha, e foi descoberto por acaso, quando, em 15 de agosto, ele se submeteu no aeroporto de Hong Kong a um teste de rotina, cujo resultado foi positivo. Como medida de cautela, o homem voltou a ser hospitalizado, apesar de não apresentar sintomas.

 

Análises genéticas comprovaram não se tratar do primeiro contágio, mas sim de uma forma mutante do vírus. Segundo Kelvin Kai-Wang To, professor clínico associado de Departamento de Microbiologia da Universidade de Hong Kong, as análises mostraram que os dois genomas virais pertenciam a cepas diversas do novo coronavírus. As duas variantes diferiam em 24 nucleotídeos, os componentes básicos do material genético.

 

É sabido há bastante tempo que, como é comum entre os vírus, o Sars-Cov-2 sofreu numerosas mutações no decorrer da pandemia, apresentando modificações sucessivas de partes de sua estrutura proteica. Para os cientistas chineses, portanto, neste caso trata-se sem dúvida de uma nova infecção.

 

Isso significa que, mesmo após vencer a doença respiratória, é possível se contaminar novamente com o coronavírus. Como observam os pesquisadores de Hong Kong, esse tipo de reinfecção também ocorre com outros coronavírus sazonais do resfriado, como o 229E, OC43, NL63 e HKUI24.

 

Dúvidas sobre futuras vacinas

Também no caso do paciente da Holanda, um homem idoso, com o sistema imunológico debilitado, o código genético do patógeno causador da segunda infecção é claramente diverso, informa a virologista e conselheira do governo holandês Marion Koopmans.

 

A reinfecção não a surpreendeu: "Sabemos de outras infecções das vias respiratórias que a proteção imunológica não é vitalícia, e não esperamos isso da covid-19", disse, numa rádio holandesa. No entanto, agora é preciso esclarecer se tais reinfecções são frequentes ou se se trata de casos isolados.

 

Na Bélgica, uma paciente voltou a adoecer após três meses. Também aqui a análise do sequenciamento genético indicou 11 mutações do vírus na segunda infecção, o que "não é uma boa notícia", como comentou o virologista Marc Van Ranst na emissora belga VTM.

 

Caso se confirmem as reinfecções, será um forte indicador de que a imunidade contra o novo coronavírus é de breve duração. Assim, após sarar da covid-19, pelo menos alguns pacientes só disporiam de proteção parcial, nem todos desenvolvendo anticorpos suficientes.

 

Contudo, mesmo oito meses após a eclosão da pandemia, muitas questões permanecem em aberto, e também para os cientistas é difícil ter uma visão geral, pois por todo o mundo se pesquisa sob pressão extrema, e muitos resultados são publicados rapidamente e sem a necessária verificação pela comunidade científica.

 

Até o momento, não estão disponíveis estudos detalhados sobre os casos da Holanda e Bélgica. E também sobre a reinfecção documentada em Hong Kong só se conhecem excertos de um artigo científico, publicados no Twitter por uma repórter do jornal South China Morning Post, e igualmente não verificados.

 

Mais de 150 vacinas contra o Sars-Cov-2 estão sendo testadas atualmente. Recentemente, a Rússia aprovou a Sputnik V, e sete outros candidatos já estão na fase 3 dos testes clínicos. Até estes estarem concluídos e serem apresentados estudos de longo prazo, não se pode garantir o grau de eficácia das substâncias, ou se também protegem contra as formas mutantes.

 

Caso as reinfecções se confirmem, é improvável que o coronavírus desapareça através da imunidade de rebanho, sendo possível que as vacinas em desenvolvimento não oferecerão imunização permanente contra o agressivo patógeno.

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