A segurança energética no Brasil está fortemente ligada ao regime de chuvas que ocorre entre os meses de dezembro e março, período em que se concentram os maiores volumes de precipitação no país. Essa dependência se deve, em grande parte, à atuação de sistemas meteorológicos capazes de gerar chuvas volumosas e persistentes sobre as principais bacias hidrográficas responsáveis pela geração hidrelétrica.
No entanto, as projeções climáticas para o verão 2025/2026 indicam maior probabilidade de irregularidade das chuvas ao longo do período úmido. Quando os corredores de umidade não se estabelecem de forma consistente, os impactos hidrológicos tornam-se evidentes, e o déficit de armazenamento passa a representar um risco estrutural para o setor elétrico, mesmo durante a estação chuvosa.
Esse comportamento já vem sendo observado ao longo do atual verão. Segundo Rennan Barbosa Suares, meteorologista da Climatempo, as chuvas têm apresentado volumes insuficientes para uma recuperação mais robusta dos reservatórios.
“De forma geral, as chuvas têm apresentado um comportamento irregular e abaixo da média em grande parte do país, inclusive nas áreas onde estão localizados os principais reservatórios de geração de energia elétrica no Centro-Oeste e Sudeste. Até agora, as chuvas não têm sido suficientes para uma recuperação consistente dos principais reservatórios”, explica.
Chuvas volumosas nem sempre garantem recarga eficiente
Embora eventos de chuva intensa possam gerar acumulados elevados em curto espaço de tempo, esse tipo de precipitação nem sempre é eficiente do ponto de vista hidrológico. A recarga dos reservatórios depende não apenas do volume, mas também da regularidade e persistência das chuvas, que permitem maior infiltração no solo, manutenção das vazões dos rios e aporte contínuo às represas.
De acordo com a meteorologista Marcely Sodermann, esse padrão de persistência tem sido menos frequente neste verão.
“Para uma elevação mais significativa dos níveis dos reservatórios, são necessárias chuvas volumosas e persistentes. Neste período úmido, foram registrados poucos episódios capazes de sustentar esse tipo de recarga, o que é incomum para essa época do ano”, destaca Marcely.
Como consequência, a Energia Natural Afluente (ENA) permanece abaixo da média histórica, mesmo em meses tradicionalmente chuvosos. Esse cenário limita a recuperação dos reservatórios ao final do período úmido e aumenta a vulnerabilidade do sistema ao longo da estação seca, reforçando a importância da gestão antecipada do risco hidrológico.
Situação atual dos reservatórios
Atualmente, o subsistema Sudeste/Centro-Oeste — principal do Sistema Interligado Nacional (SIN) — opera com armazenamento em torno de 43%, enquanto no mesmo período do ano passado os níveis estavam próximos de 55%. A Energia Natural Afluente acumulada até meados de janeiro permanece abaixo da Média de Longo Termo (MLT), refletindo a dificuldade de recuperação ao longo do verão.
O Boletim do Programa Mensal de Operação (PMO) também indica projeções de afluências inferiores à média para o restante do mês, o que mantém o cenário de atenção operacional para o setor elétrico, apesar de diferenças regionais entre os subsistemas.
“Esse cenário requer grande atenção. Apesar de ainda haver alguma contribuição das chuvas, a recuperação dos reservatórios tem ocorrido de forma lenta e gradual”, reforçam os meteorologistas da Climatempo.
Segunda ZCAS do ano traz chuva volumosa, mas recuperação segue sob atenção
A Climatempo indica a previsão de um novo episódio de chuva volumosa entre os dias 19 e 23 de janeiro de 2026, caracterizando a segunda Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) registrada neste ano. A organização do sistema será favorecida pela circulação atmosférica em médios e altos níveis, associada ao avanço de uma frente fria pela costa do Sudeste.
Segundo a meteorologista Josélia Pegorim, as áreas de instabilidade devem se espalhar por grande parte do Sudeste e do Centro-Oeste, com destaque para o leste de Minas Gerais, Espírito Santo, Norte e Noroeste do Rio de Janeiro e áreas centrais de Goiás.
“Essa será a segunda ZCAS de 2026. Em algumas dessas regiões, os acumulados podem chegar a volumes equivalentes à média de chuva para todo o mês de janeiro em apenas cinco dias, o que tende a beneficiar rios e reservatórios importantes do subsistema Sudeste/Centro-Oeste”, explica Josélia.
Apesar do potencial positivo, a meteorologista ressalta que a recuperação dos reservatórios deve ocorrer de forma gradual, já que a recomposição mais consistente dos níveis depende da persistência dos corredores de umidade ao longo do período chuvoso.
“Mesmo com esse novo episódio, o impacto sobre o armazenamento não é imediato nem homogêneo. Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul devem receber volumes menores de chuva, o que mantém o cenário de atenção para o sistema”, alerta.
Diante desse contexto, o setor elétrico segue demandando monitoramento contínuo das condições meteorológicas e hidrológicas, para avaliar os efeitos reais desse evento e antecipar decisões operacionais nas próximas semanas.




