Pelos meteorologistas Fernanda Argollo, Lívia Caetano e Demian Calderon
A Península Ibérica enfrenta um dos inícios de ano mais críticos do ponto de vista meteorológico das últimas décadas. Uma sequência incomum de tempestades extratropicais, que se sucedem em curto intervalo de tempo, mantém Portugal e Espanha em estado máximo de alerta, com chuvas volumosas, ventos extremos, mar agitado e impactos severos à população.
Desde o dia 22 de janeiro, quando a tempestade Ingrid avançou do Atlântico Norte em direção ao continente europeu, o padrão atmosférico passou a ser dominado por sistemas de baixa pressão, frentes frias e cavados em médios e altos níveis, favorecendo um cenário persistente de instabilidade. Ingrid provocou queda brusca das temperaturas e episódios de neve fora do padrão, inclusive em áreas que não registravam o fenômeno há pelo menos dez anos.
Na sequência, a tempestade Joseph manteve o tempo severo, e antes mesmo do fim do mês, a tempestade Kristin exigiu a decretação de estado de alerta máximo. Kristin foi responsável por volumes elevados de chuva, além de forte agitação marítima, com ondas invadindo ruas e avenidas litorâneas, e ventos persistentes e extremamente fortes, com rajadas superiores a 200 km/h.
Os maiores danos foram registrados em Portugal, especialmente na região de Leiria, onde casas e edifícios foram destelhados, árvores caíram em grande número e houve interrupções no fornecimento de energia elétrica e nas comunicações, deixando comunidades isoladas por dias.
Tempestade Leonardo agrava risco hidrológico
Enquanto algumas áreas ainda tentavam se recuperar, uma nova tempestade, denominada Leonardo, entrou em ação, elevando ainda mais o nível de preocupação. O cenário atmosférico segue marcado por forte fluxo de umidade do oceano Atlântico, que sustenta chuvas persistentes e concentradas em curtos períodos, aumentando significativamente o risco de alagamentos urbanos, enxurradas rápidas e transbordamento de rios e ribeiras.
Em Portugal, a instabilidade atinge principalmente o Norte, o Centro e áreas litorâneas, com chuva contínua e episódios de forte intensidade. Já há registros de alagamentos, dificuldades no tráfego e elevação rápida do nível de pequenos cursos d’água. Diante dos volumes previstos, reservatórios que já operam próximos de suas cotas máximas iniciaram procedimentos de descarga para reduzir o risco estrutural.
Na Espanha, os maiores acumulados se concentram no noroeste e no norte, com destaque para a Galícia, mas a instabilidade avança também para regiões do interior, ampliando a área sob alerta meteorológico.
Solo saturado, deslizamentos e ventos fortes
A nebulosidade permanece extensa, com pouca ou nenhuma abertura de sol ao longo do dia. Com o solo já encharcado, a capacidade de absorção da água está severamente reduzida, o que eleva o risco de saturação do terreno e deslizamentos de terra, sobretudo em áreas montanhosas e encostas.
Além da chuva, a atuação dos sistemas de baixa pressão mantém ventos moderados a fortes, especialmente em regiões costeiras, onde contribuem para mar agitado, e em áreas elevadas, onde intensificam a sensação de frio e o desconforto térmico. As rajadas já provocaram queda de galhos, danos estruturais pontuais e dificuldades para atividades ao ar livre.
Danos generalizados e agravamento da crise humanitária
Entre os principais impactos já observados estão:
- Alagamentos em áreas urbanas
- Transbordamento de rios e ribeiras
- Interrupções no trânsito e em vias de transporte
- Queda de árvores e danos à infraestrutura
- Risco elevado de deslizamentos de terra
O número de vítimas fatais subiu para 13, sendo 12 em Portugal e 1 na Espanha, refletindo a gravidade do evento meteorológico.
Diante do cenário de destruição, o governo português avalia inclusive o adiamento do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para o próximo domingo, dia 08 de fevereiro, nas regiões mais severamente afetadas.
Tendência do tempo nos próximos dias
A instabilidade deve persistir nos próximos dias, com novos episódios de chuva forte intercalados por breves períodos de melhora. Embora a tempestade Leonardo apresente sinais de enfraquecimento, os modelos atmosféricos indicam a formação de uma nova tempestade, chamada Marta, o que mantém o nível de alerta elevado, especialmente nas áreas já impactadas pelos altos acumulados.
Autoridades e serviços meteorológicos seguem monitorando a situação e reforçam a importância de que a população acompanhe os avisos oficiais e adote medidas preventivas diante do risco de novos temporais.



