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ESPECIAL INVERNO 2016

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Umidade Relativa do Ar e Saúde

03/07/2016 às 03:00
por Leandro Bellato
Atualizado 26/08/2016 às 10:16

Uma das características típicas do inverno brasileiro em boa parte do território nacional é o predomínio de ar seco no interior do país, dificultando a ocorrência de chuvas. No Sul e Sudeste do país, e também em parte do Centro-Oeste, até ocorrem chuvas, por vezes intensas e passageiras, por causa da passagem de sistemas frontais. Em seguida à passagem de uma frente fria é muito comum que uma massa de ar mais frio e seco perdure por alguns dias, novamente dificultando a ocorrência de chuva. Assim, de modo geral, na maior parte do Brasil inverno é sinônimo de tempo seco. 


A quantidade de vapor d'água que o ar é capaz de reter antes dele condensar (ou seja, se transformar em gotículas d'água e formar nuvens, nevoeiros ou chuva) depende da temperatura do próprio ar: quanto mais quente for, maior a quantidade de vapor d'água que o ar suporta sem condensar. Quando o ar condensa e forma nevoeiro (aqui próximo à superfície) ou uma nuvem (em alturas mais elevadas), a umidade relativa do ar é 100%, pois ele já está saturado, ou seja, já tem todo o vapor d'água que pode conter naquela temperatura. Conforme o ar esquenta, sem a adição de mais vapor d'água, a quantidade de vapor que o ar comporta antes de condensar também aumenta e, portanto, a umidade relativa do ar cai. 

 

É exatamente este o caso da maior parte do país durante o inverno: com chuva rarefeita e  longos intervalos de estiagem, cada vez há menos vapor d'água disponível na atmosfera; com poucas nuvens, a temperatura do ar próximo à superfície se eleva e "aguenta" cada vez mais vapor d'água que, no entanto, não surge de lugar algum. Assim, nos períodos mais quentes daqueles dias com pouca ou nenhuma nebulosidade a umidade relativa do ar "despenca". 

 

O ar seco causa incômodo nos olhos, nariz, lábios e no trato respiratório, por ressecar as mucosas. Mucosas ressecadas são mais sensíveis e por isso ficam sujeitas a irritações, principalmente se as coçarmos. Mucosas ressecadas também são mais suscetíveis a microferidas, que as deixam mais vulneráveis à penetração de vírus e bactérias, que podem desenvolver infecções de intensidade variada. Além disso, a maioria dos vírus e bactérias sobrevive por mais tempo em ambiente seco. 

 

Por isso no inverno o contágio de gripes e resfriados é mais comum. Com o ar seco, infecções oportunistas também são mais comuns, como conjuntivites. As doenças alérgicas do trato respiratório também são facilitadas e ambientes mais poeirentos incomodam bastante o nariz e os olhos. Com temperaturas mais elevadas e ar bastante seco, como é o caso de boa parte do interior do país durante o inverno, a sudorese é facilitada e se perde facilmente maior quantidade de líquidos pela transpiração. Desta forma, ao praticar atividades físicas em ambientes secos o risco de desidratação é elevado, causando variações na pressão sanguínea, variação do ritmo cardiorrespiratório, eventuais dores de cabeça e, em casos mais severos, disenteria, desmaios, etc. 

 

Em ambientes com baixa umidade relativa do ar e alta incidência de luz solar, não só a dispersão de poluentes é dificultada, piorando a qualidade do ar, mas algumas substâncias químicas interagem com a luz do sol e se convertem em ozônio, um gás extremamente tóxico próximo à superfície e que agrava quadros de irritação na pele e nas mucosas. Pessoas imunodeprimidas, geralmente as que fazem tratamento contra câncer, que se recuperam de cirurgias, etc, são bastante sensíveis aos efeitos nocivos do ozônio troposférico (este que se forma aqui perto da superfície, por causa da poluição e da luz do sol em ambientes secos, não o ozônio estratosférico, há vários quilômetros de altura, que nos protege da radiação solar).

 

Para se precaver dos efeitos nocivos à saúde provocados pela baixa umidade relativa do ar é necessário se hidratar bem, através da ingestão de líquidos, principalmente ao praticar exercícios físicos a céu aberto. É interessante umidificar os olhos com colírios umectantes, sobretudo se estiver usando lentes de contato. Usar umectantes labiais também ajuda. Também é aconselhável evitar se expor a ambientes assim tão secos, sobretudo para pessoas imunodeprimidas ou com histórico de complicações respiratórias. 

 

Também é interessante aumentar a ventilação dos ambientes fechados, para dificultar a transmissão de patógenos por via aérea. Há aparelhos umidificadores de ar, que se usados adequadamente, conforme as instruções de fábrica, também deixam um ambiente fechado mais confortável e relativamente mais "seguro". No entanto, é bom evitar a disposição de recipientes com água pela casa, especialmente próximo a tecidos e espumas (como colchões e travesseiros), porque conforme ocorre o entardecer e a noite avança, as temperaturas frequentemente declinam rapidamente e, então, a umidade do ar se eleva. Com fontes de água líquida por perto, em ambientes fechados, rapidamente a umidade relativa do ar naquele local fica próxima ao ponto de saturação, o que favorece a dispersão de fungos e bolores, cujos prejuízos à saúde são tão ou mais severos do que os causados pelo ar mais seco. 

Em casos de desidratação mais severos, auxílio médico pode ser necessário.