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El Niño mantém o Brasil aceso

27/11/2015 às 21:26
por Josélia Pegorim

Atualizado 29/11/2015 às 21:30

Graças ao fenômeno El Niño, caracterizado por um aquecimento acima do normal das águas do oceano Pacífico Equatorial, o Brasil está se mantendo aceso e sem racionamento de energia elétrica, apesar da grave crise hídrica que ainda se verifica no país.

O El Niño modifica a direção e a intensidade dos ventos e também a pressão atmosférica média na região entre a América do Sul e a região da Austrália e da Indonésia. A partir daí, a chuva muda de lugar e de intensidade.

 

 

 

 

São estas alterações dos ventos e da pressão que estão provocando chuva muito acima do normal sobre o Sul do Brasil, em parte do Paraguai e do norte da Argentina, sobre os rios que abastecem a usina de Itaipu.

O mapa mostra a anomalia (diferença em relação à média) da chuva em novembro de 2015, até o dia 26. Os tons de azul indicam chuva acima do normal. A chuvarada que caiu na segunda quinzena de novembro sobre o centro-oeste e norte de São Paulo, sobre o Paraná e o centro-sul e leste de Mato Grosso do Sul foi para o rio Paraná, o principal alimentador de Itaipu. O rio Paraná faz a divisa entre São Paulo e Mato Grosso do Sul e entre este estado e o noroeste do Paraná.

 

 

 

 

A quantidade de chuva vem sendo tão acima do normal, que em meados de outubro, a usina hidrelétrica de Itaipu começou a abrir comportas para jogar fora a água do grande lago. Foi preciso dispensar o excedente de água que não estava sendo utilizado para a geração de energia. No dia 22 de novembro de 2015, depois de mais de quatro anos, Itaipu abriu todas as 14 comportas das três calhas para liberar mais energia excedente. Em uma situação normal, apenas uma ou duas calhas são abertas para escoar o volume de água excessivo. Só em grandes cheias, como a que está ocorrendo na primavera de 2015, todas as comportas são abertas ao mesmo tempo. É agua saindo pelo ladrão!

 

 

 

 

No outro extremo do país, a situação é oposta. A ANA – Agência Nacional das Águas – informou que a partir do dia 1 de dezembro de 2015, as vazões defluentes do reservatório de Três Marias, em Minas Gerais, serão reduzidas de 500 m³/s para 400 m³/s para preservar o máximo possível os baixos estoques de água. O dia 24 de novembro de 2015, Três Marias operava com apenas 8,77% de sua capacidade. A diminuição da vazão é uma medida para evitar o colapso do reservatório. Três Marias está na UTI e sair deste estado vai depender da chuva do próximo verão.

A situação do reservatório de Sobradinho, que gera energia para o Nordeste, é ainda muito mais grave. Por causa da chuva muito abaixo do normal desde 2013 na bacia do rio São Francisco, a vazão em Sobradinho também tem estado muito abaixo do normal.

 

O que esperar da chuva do verão?

O meteorologista da Climantempo, Alexandre Nascimento, analisa o cenário energético para o verão.

“Vamos continuar com chuva demais no Sul e em Itaipu pelo menos até janeiro. A chuva no sub-sistema Sudeste/Centro- Oeste deve ser bem maior do que nos anos anteriores. Ou seja, a situação para essas Regiões será bem melhor.

 Por outro lado, o Nordeste está na contramão disso. Depois de vários anos com pouca chuva, a estação úmida desse ano deve ser sob o efeito de um dos maiores (e talvez o maior) El Niño de todos os tempos. Ou seja, não há previsão de recuperação para o subsistema. 

 De forma geral, vamos continuar com o sistema térmico para atender a demanda e isso deve manter o preço da energia elevado. A bandeira vermelha na conta de luz vai continuar aparecendo ainda por muito tempo.”

 

Sul ilumina o Brasil

Todos os dias os técnicos da ANA fazem um balanço de energia específico para cada região do país. É preciso saber quanto cada uma está conseguindo gerar de energia e qual o consumo. A conta tem que fechar: energia gerada tem que ser igual ou maior do que a demanda (consumo).

A falta de chuva no verão 2013/2014 e 2014/2015 deixou o Brasil numa grave crise hídrica. Quase toda a energia consumida no país vem de hidrelétricas, que precisam da água da chuva volumosa do verão para garantir o funcionamento no restante do ano. O Brasil só não apagou em 2014 e em 2015 porque as usinas termoelétricas estão funcionando a toda carga desde 2013, e porque a chuvarada sobre o Sul do Brasil em 2015, provocada pelo El Niño, vem deixando a usina de Itaipu abarrotada de energia.

 

 

 

 

Entenda o mapa

Produção total é a energia que cada região produz. Carga é o consumo, o quanto a região gasta efetivamente no dia.

O Sul do Brasil é a única região que está produzindo muito mais do que seu consumo. O que sobra do Sul está sendo distribuído para as outras regiões do país. Podemos dizer que o Norte e o Nordeste não "apagaram" até agora por causa da energia excessiva da Região Sul.

 

É a energia que não é usada pelo Sul do Brasil que cobre as deficiências do sub-sistema Centro-Oeste/Sudeste, que empresta energia para o Nordeste. O Norte também empresta para o Nordeste e todas as luzes ficam acesas.

Podemos dizer que o El Niño, as térmicas e a crise econômica (que diminui a demanda industrial) estão livrando o Brasil de um grande apagão. A energia excessiva da chuvarada sobre o Sul do Brasil é o lado bom do El Niño.