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Não confunda swell, ressaca e meteotsunami

30/10/2016 às 18:48
por Josélia Pegorim

Outubro de 2016 terá um lugar especial na história meteorológica do Brasil pelos eventos extremos da última semana do mês, no ar e no mar.

O ano de 2016 está sendo de grande agitação marítima. Várias ressacas intensas causaram sérios danos na orla de cidades litorâneas da Região Sul, de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em uma delas, parte de uma ciclovia à beira mar no Rio de Janeiro foi destruída. Durante as Olimpíadas Rio2016, uma ressaca também danificou instalações de provas no mar.

A ressaca mais recente, e talvez a mais forte de 2016, foi observada entre os dias 28 e 30 de outubro no litoral das Regiões Sul e Sudeste e foi provocada pela passagem de um intenso swell gerado por forte ciclone extratropical.

 

Áreas de Caraguatuba, no litoral norte de São Paulo, foram alagadas no dia 29/10/2016 por causa da forte ressaca do mar.

 

 

Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul foi atingida pelas grandes ondas do forte swell que passou pelo litoral da Região Sul nos últimos dias de outubro de 2016.

 

Esta situação é incomum para o fim de outubro. Ciclones extratropicais podem ocorrer na costa sul do Brasil em qualquer época do ano, mas são mais comuns e mais fortes nos meses de outono inverno

 

 

O litoral de São Paulo teve grandes ondas e mar muito agitado no último fim de semana de outubro de 2016.

 

A forte agitação marítima chegou ao litoral da Região Sul duas semanas após a ocorrência de um tsunami meteorológico, em 15 de outubro, que causou grave destruição na região do Balneário Rincão e no Morro dos Conventos, em Araranguá, no sul catarinense.

Além deste forte swell na costa sul do Brasil, outro swell avançou forte do Atlântico Norte trazendo grandes ondas para o litoral do Norte e de parte do Nordeste do Brasil.

Oceanógrafos alertaram os meteorologistas para dar atenção especial com este swell da costa norte do Brasil porque já havia no passado registros de danos graves e de vítimas fatais numa situação semelhante.

 

 

As estranhezas atmosféricas e oceânicas do fim de outubro de 2016 foram completadas por uma onda de frio forte que baixou a temperatura para marcas um em torno de zero grau no Sul do Brasil.

Será que a passagem do forte swell pelo litoral do Sul poderia causar outro tsunami meteorológico? Qual a diferença entre este fenômeno e uma ressaca de um swell? Por que o swell do Atlântico Norte chamou a atenção dos oceanógrafos? O que provoca esta agitação marítima na costa norte do Brasil?

 

A Climatempo entrou em contato com o doutor Valdir Innocentini, pesquisador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) para esclarecer estas questões.

O doutor Valdir esclareceu que, embora não se tenha uma estatística de swells, "a agitação marítima intensa atingindo o litoral sul/sudeste do Brasil pode ocorrer em todos os meses. Há alguns casos memoráveis bem na passagem de ano."

 

Até meados de outubro, quando ocorreu o tsunami meteorológico (também chamado de meteotsunami) no litoral de Santa Catarina, muita gente nem se quer conhecia este fenômeno, que pelos grandes danos que pode causar, pode ser facilmente confundido com o tsunami gerado por abalos sísmicos ou com uma forte ressaca.

Valdir Innocentini explicou que estes fenômenos são diferentes, que são gerados de formas distintas. "Um swell (marulho), são ondas geradas pelo vento, que se propagam por muitos quilômetros antes de chegarem à costa. Windsea (vagas), também são ondas geradas pelo vento, mas neste caso, o observador está muito próximo de onde estão sendo geradas."

Já o fenômeno da ressaca, explica o doutor Innocentini "é a elevação anormal do nível do mar na costa. Pode ser provocada por ondas, marés astronômicas ou marés meteorológicas (storm surge). Geralmente ocorre quando há combinação de mais de um desses fatores favoráveis.

O tsunami meteorológico é gerado de forma completamente diferente do swell e da ressaca, observa o doutor Valdir. "O tsunami meteorológico não é gerado pelo vento, mas por alguma instabilidade atmosférica que entra em ressonância com ondas da superfície do mar."

 

Na imagem de satélite de 27/10/2016, o ciclone extratropical que gerou o forte swell do fim de outubro na costa do Sul e do Sudeste aparece sobre o oceano entre o litoral do Rio Grande do Sul e do Uruguai. Na região do ciclone, as bandas de nuvens (manchas amarelas, verdes e azuis) se enrolam como um caracol, acompanhando o giro dos ventos no sentido horário característicos dos ciclones extratropicais no Hemisfério Sul.

 

O swell mais comum na costa do Sul e do Sudeste é o que vem de sul/sudoeste. Mesmo sendo forte, um swell não pode provocar um tsunami meteorológico em algum lugar. O professor Innocentini salienta que não há relação entre estes dois fenômenos: "São coisas diferentes. Um tsunami meteorológico é uma onda de gravidade de período grande. Ondas geradas pelo vento, como um swell, têm períodos pequenos, de no máximo 20 segundos, e vem uma crista atrás da outra."

Esta é mais uma diferença que permite diferenciar os fenômenos.

 

 

 

O grande swell que avançou do Atlântico Norte para a costa norte do Brasil chamou mais a atenção dos oceanógrafos que alertaram os meteorologistas da sua periculosidade.

O professor Valdir Innocentini explicou que "em mar aberto, a previsão era de ondas de 3 metros, com período de pico em torno de 17 segundos. Embora não seja a altura não seja grande, a energia associada é muito grande, o que significa que ao se propagar sobre uma batimetria rasa (fundo raso), a altura poderia crescer bastante e ondas com até 5 metros poderiam chegar à costa."

 

Sabemos que a maioria dos swells que atingem a costa do Sul e do Sudeste do Brasil são gerados pela passagem de ciclones extratropicais pela costa da Argentina, do Uruguai e do Sul do Brasil.

É comum ocorrer grandes e fortes agitações marítimas durante o período de influência de furacões e de tempestades tropicais no Atlântico Norte. Mas estes fenômenos não são os principais causadores dos swells que passa pela costa norte do Brasil.

O professor Valdir comenta: "Por incrível que pareça, o swell da costa norte do Brasil não tem nada a ver com os ciclones tropicais. Eles são provocados por ciclones extratropicais que se desenvolvem e se intensificam ao norte da latitude 50N. Ocorrem durante o inverno do Atlântico Norte, quando os ciclones ficam mais intensos." O inverno no Hemisfério Norte ocorre entre o fim de dezembro e o fim de março, quando é verão no Hemisfério Sul.