Problemas em Veneza permanecem após grande inundação

06/12/2019 às 10:34
por Redação

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A cheia deu trégua à cidade italiana, mas ficam os danos causados aos tesouros culturais, com dimensão ainda incerta

Para o prefeito Luigi Brugnaro, tudo permanece o mesmo. O apelo público do empresário e político sem partido teve efeito: o casamento forçado com Mestre, cidade industrial situada em frente às ilhas de Veneza, foi preservado. Embora muitos eleitores tenham deixado de votar no referendo do último fim de semana, outros foram às urnas, e a maioria optou pela união das duas cidades.

 

Não é de surpreender que apenas cerca de 50 mil pessoas ainda morem na cidade da laguna, em comparação com quatro vezes mais em Mestre. Há 80 anos, quando os fascistas de Benito Mussolini criaram a Grande Veneza, a proporção era exatamente o contrário. A política de Veneza é hoje determinada pelos venezianos do continente.

 

Assim, em novembro último, a enchente do século atingiu apenas uma minoria. Os "verdadeiros" venezianos e sua "maravilhosa cidade insular, essa república de castores", como Goethe uma vez a admirou, foram pegos de surpresa pela acqua alta: a grande cheia elevou a altura da água a inesperados 187 centímetros acima do nível do mar. Inúmeros tesouros culturais – palácios, bibliotecas e igrejas – permaneceram inundados durante dias por água salgada e insalubre.

 

Desde então, a Basílica de São Marcos, com sua cripta inundada, não falta em nenhum relatório de danos. Brugnaro, "veneziano continental" e prefeito da cidade, declarou estado de emergência, estimando o dano potencial da enchente em até um bilhão de euros.

 

Para Wolfgang Wolters, especialista berlinense em Veneza, esse bilhão é "sinônimo de desastre". No entanto, o historiador e especialista em arte veneziana põe em dúvida esse montante. "Os prejuízos não são tão fáceis de estimar", diz Wolters, que já participou de um inventário da Unesco sobre danos na cidade italiana em 1966.

 

Naquela época, Veneza foi atingida pela enchente até então mais devastadora, e em seguida especialistas internacionais avaliaram os prejuízos. Um procedimento que Wolters sugere agora aos responsáveis, porque, "antes do tratamento, é necessário o diagnóstico – e o mais rápido possível!".

 

Problemas causados pelo homem

 

Como ex-consultor da Unesco na cidade italiana e diretor fundador do Centro Alemão de Estudos em Veneza, Wolters conhece o município como a palma da mão. Ele lembra que, há 53 anos, as pessoas teriam se solidarizado contra as forças da natureza por ocasião da enchente, mas hoje está "claro que os problemas são causados pelo homem".

 

"Em Veneza, as gôndolas foram parar em terra firme na frente dos hotéis; na Praça de São Marcos, o nível da água nos cafés históricos ficou a mais de um metro de altura. Isso também vale para a Basílica de São Marcos, que acaba de ser restaurada", reclamou o morador de Veneza e escritor Danilo Reato em 13 de novembro, em desesperados e-mails ao seu editor em Bonn, Arnold Maurer.

 

"No bairro de Arsenal, um barco foi levado quase até o final de um beco, outros afundaram. Num dos navios, a corda da âncora se arrebentou, e ele teve que ser recuperado pela autoridade portuária. Isso é realmente o fim desta cidade!"

 

Em Bonn, o editor Maurer, bolsista de 1977 a 1979 no Centro Alemão de Estudos em Veneza, disse estar indignado com as aparições midiáticas do prefeito veneziano, "fazendo apenas pose dentro d'água".

 

"Lixo por toda parte"

 

Atualmente, a enchente deu trégua à cidade. Muitos venezianos estão limpando porões e pavimentos térreos inundados. Toneladas de lixo, incluindo móveis e centenas de colchões, foram parar nas calçadas. "Há lixo por toda parte", lamenta o historiador e romancista suíço Erasmus Weddigen, que vive metade do ano em Veneza.

 

Obviamente ainda não há um relatório oficial de prejuízos. Uma delegação da Unesco pretende ir a Veneza em janeiro próximo para avaliar a situação. Em 2015, a organização da ONU ameaçou retirar da cidade o título de Patrimônio Mundial da Humanidade se ela não conseguisse controlar seus problemas.

 

Sven Taubert, presidente da Associação de Restauradores (VDR) alemã, diz que, "mesmo que a água tenha baixado e todos possam respirar de alívio, reparar os danos leva muito tempo". Segundo Taubert, as inundações liberaram sais corrosivos que agora se espalham nas paredes de muitos edifícios.

 

Além disso, o sal marinho e especialmente a mistura de vários poluentes – como fezes e produtos químicos na água – também atuam de forma nociva, explica o restaurador, apontando que é necessário agir o mais possível, pois fungos estão se formando dentro e sobre as paredes úmidas.

"Ali é possível ver a rapidez com que as superfícies ficam verdes, amarelas ou pretas", diz Taubert, cuja equipe planejou e liderou por quase oito anos a restauração do mosteiro de St. Marienthal, na região alemã de Lausitz, após a inundação do rio Neisse em 2010.

 

Revolta contra o governo

 

"Um bilhão de euros é muito dinheiro", diz Taubert, que exige uma "mobilização em prol de Veneza". Ele afirma que pode ser, realmente, que essa soma seja necessária e que os danos em objetos, edifícios e bairros da cidade devem ser agora categorizados e priorizados.

 

Após a grande cheia em novembro, o governo da Itália liberou uma ajuda de emergência no valor de 20 milhões de euros. Indivíduos devem receber uma indenização de até 5 mil euros; empresários e comerciantes, de até 20 mil euros. "É claro que não se pode ajudar a tudo e a todos", diz Taubert, "mas é preciso levar em conta a população, caso contrário a catástrofe deixará também perdedores sociais".

 

Constantes multidões de turistas, navios de cruzeiro, ausência de medidas de proteção contra as enchentes e agora também as mudanças climáticas com o aumento dos níveis dos oceanos – muitos venezianos estão cada vez mais irritados com o governo, acusando-o de falta de ação.

Os problemas são "feitos em casa", diz a escritora alemã Petra Reski, que vive em Veneza. Segundo ela, a cidade se transformou numa "máquina de fazer dinheiro" e é "governada pelos pregadores do fundamentalismo turístico", cujo credo pode ser resumido com as palavras: "Venezianos para fora, turistas para dentro!"

 

Também a ativista ambiental italiana Jane da Mosto luta pela proteção de Veneza. Ela critica que, em favor da Grande Veneza, o centro histórico é "espremido como um limão siciliano". A maioria dos "verdadeiros" sicilianos não tem nenhum direito de voz, reclama a ativista.

 

 

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