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Depp versus Heard: violência e difamação nas redes sociais

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8 min de leitura

Transmissão ao vivo do processo por difamação do casal hollywoodiano Johnny Depp e Amber Heard atrai atenção midiática sem precedentes. Quais serão as consequências reais para vítimas de violência sexual?

 

O processo por difamação envolvendo as estrelas de Hollywood Johnny Depp e Amber Heard evoluiu para assunto controverso na internet. Nas redes sociais, discute-se acaloradamente sobre a culpa ou inocência do ex-casal. Ao contrário do tribunal, os influenciadores e seus seguidores parecem já ter chegado a um veredito.

 

O fato de tantos terem uma opinião formada sobre essa briga de lama de celebridades tem possivelmente muito a ver com o fato de o processo estar sendo transmitido ao vivo na internet. Tudo começou com um artigo de opinião que Amber Heard publicou em 2018 no jornal Washington Post, em meio ao movimento #MeToo.

 

Lá ela descrevia como sofrera violência doméstica na própria pele. Embora não mencionasse seu ex-marido pelo nome, no ano seguinte Johnny Depp virou a mesa e abriu uma ação jurídica alegando que ela o difamara e que era a verdadeira agressora.

 

Heard reagiu com um contra-processo, palavra contra palavra, tendo milhões de dólares em jogo. Agora a ação entra em fase final perante um tribunal de Virgínia: nesta sexta-feira (27/05), após as declarações finais, o caso vai para as mãos dos sete jurados.

 

"Maldição das câmeras"
Espectadores de todo o mundo podem assistir de graça à briga de lama no canal online Court TV. Para uns, trata-se de uma divertida rixa entre milionários hollywoodianos, para outros, uma farsa intolerável.

 

Para o advogado alemão especializado em questões midiáticas Lucas Brost, o cerne do problema é a "maldição das câmeras": "As imagens ficam marcadas: uma Amber Heard em prantos ou um Johnny Depp sorridente. Isso desperta emoções especiais e também reações entre a população." Do ponto do vista do direito alemão, porém, o processo é "uma violação gravíssima dos direitos à personalidade".

 

Brost é extremamente crítico por uma ação dessas ser levada à esfera pública, por se trabalhar com equipes de relações públicas, pela disputa por uma soberania interpretativa na mídia e pela massa de pré-julgamentos: "Assim se forma uma opinião entre o público que, no fim das contas, talvez nada tenha a ver com o que o tribunal decida."

 

Nos Estados Unidos, considera-se que um processo público é a garantia da maior transparência possível. "A abordagem é compreensível, mas – como mostra este processo bem claramente – ela vai muito além do que se tenciona. Pois a presença da mídia funciona como um agente combustível."

 

Cada movimento facial pode ser comentado diretamente e "lançado no espaço", aponta o jurista de Colônia, numa alusão ao abundante compartilhamento do processo em canais de mídia social.

 

Consequências danosas para vítimas de violência sexual
Brost avalia que ninguém lucra com esse processo público. A transmissão ao vivo prejudica sobretudo Amber Heard, enquanto "o pêndulo da opinião pública oscila a favor de Johnny Depp". Por outro lado, o episódio não favorecerá a carreira do astro de Piratas do Caribe, pois vêm à tona detalhes picantes que permanecerão na memória coletiva.

 

Nesse ínterim, circulam na internet numerosos memes, paródias e outros conteúdos baseados nas gravações das audiências, que tomam partido por um lado ou pelo outro e levam a ação jurídica para o campo do ridículo. O resultado é a sensação de que se trata de um espetáculo midiático visando exclusivamente a diversão.

 

A socióloga americana Nicole Bedera teme que o caso Heard-Depp terá consequências abrangentes para as vítimas de violência sexualizada. Os danos causados pelos influenciadores serão imensos: "Os influencers costumam lucrar com o efeito bola-de-neve dos algoritmos. Isso pode gerar a impressão, tão logo muitos apoiem Depp, de que a maioria dos usuários da rede está do lado dele. E isso antes mesmo de Amber Heard poder se manifestar."

 

Assim, já se registraram shitstorms contra quem se colocou do lado da atriz, resultando, para muitos, na sensação de que não podem mais expressar a própria opinião. E entre os que ficam intimidados por tais campanhas estão também as vítimas de violência sexual, parte das quais se identifica com Heard.

Para estas, um processo assim pode se transformar num obstáculo que, no futuro, as impedirá de investir judicialmente contra seus agressores ou agressoras, ou até mesmo as fará recalcar suas experiências traumáticas, alerta Bedera.

 

Homens têm bônus de empatia
Mas qual é a causa de tal discrepância? Por que a tendência de tomar o partido de Depp? Por que, na plataforma TikTok, a hashtag #IStandWithAmberHeard ("fique do lado de Amber Heard") foi clicada meros 8,6 milhões de vezes, enquanto #JusticeForJohnnyDepp ("justiça para JohnnyDepp") conseguiu cerca de 15,7 bilhões?

 

Na opinião pública vigora a imagem de uma "vítima perfeita", que, no entanto, não corresponde à vivências reais de uma vítima de violência de cunho sexual. Esse hiato resulta em maior empatia com os homens acusados. "A filósofa Kate Manne denomina esse fenômeno 'himpathy', ou seja, a empatia exagerada que se dedica aos homens, em tais contextos, em detrimento das mulheres", explica Bedera.

 

Ela não se surpreende que a atual exposição midiática gere mais simpatia para Depp do que para Heard: "Á luz desses preconceitos que vêm à tona na transmissão ao vivo de um processo assim, o homem envolvido quase sempre saí ganhando, sobretudo se for o agressor."

 

A briga do casal hollywoodiano já se arrasta há anos, e para um julgamento distanciado também se deve levar em consideração os embates judiciais do passado. No entanto, Bedera está convencida de que é sem precedentes a atenção midiática que o caso está atraindo, pois "é muito atípico hashtags serem usadas bilhões de vezes".

 

Tanto Bedera quanto o advogado Brost estão seguros de que a questão não estará encerrada com o processo jurídico, pois casos envolvendo violência e celebridade costumam ter grande repercussão social. "O caso Depp versus Heard vai nos ocupar por muito tempo", prediz a socióloga.

 

Este conteúdo é uma obra originalmente publicada pela agência alemã DW. A opinião exposta pela publicação não reflete ou representa a opinião da Climatempo ou de seus colaboradores.

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