Névoa e nevoeiro no Rio de Janeiro

28/05/2017 às 20:53
por Leandro Bellato

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O domingo foi atípico em partes da Capital carioca.

No final da madrugada e início da manhã do domingo, dia 28/05, iniciou-se a formação de névoa úmida ou até nevoeiro sobre partes da cidade do Rio De Janeiro, em especial as margens costeiras das Zonas Sul e Oeste e ao redor das encostas dos morros nesta região. A névoa úmida se diferencia do nevoeiro principalmente pela restrição à visibilidade: quando a nebulosidade está limitada entre 1000m e 5000m, é névoa úmida; o nevoeiro é mais "denso" e limita a visibilidade para menos de 1000m. 

 

Na Base Aérea de Santa Cruz a visibilidade estava restrita a 4000m às 06:00 e voltou a formar névoa úmida no fim da tarde, às 17:00. No aeroporto Santos Dumont a visibilidade chegou a ficar restrita a 400m às 11:00 e já no início da noite ela estava restrita a 900m às 18:00. Ao redor da Baía de Guanabara e na Zona Norte da cidade não houve a formação de névoa úmida, posto que a umidade vinda do mar foi levada para a costa da Zona Sul, onde encontrou condições propícias à condensação e formação de névoa úmida ou nevoeiro. 

 

Em geral, ao longo das primeiras horas da manhã o aquecimento superficial e a turbulência costumam dissipar névoa ou nevoeiro. Entretanto, neste domingo a névoa persistiu mesmo durante o início da tarde e voltou a ocorrer em diversos pontos da cidade já ao cair da tarde e início da noite. Tal situação é pouco comum nesta época do ano. 

Imagem do satélite GOES-16 de 11h15, mostrando névoa sobre as Zonas Sul e Oeste do Rio.



Um sistema de alta pressão atmosférica em superfície atua sobre o oceano a sudeste da costa carioca, inibindo a formação de nebulosidade sobre o mar e propiciando ventos de quadrante sul, trazendo ar mais frio para a região. Com menor cobertura de nuvens e o aporte de ar frio, a superfície do mar esfria, o que resfria também o ar imediatamente acima dela. O ar sobre o oceano contém muita umidade, quando este ar esfria a umidade se condensa, formando névoa úmida ou nevoeiro. A predominância de ventos que sopram vindos de sul e sudeste levam este ar cuja umidade está condensada em névoa para a costa carioca. 

 

Também sob influência deste sistema de alta pressão em superfície, a cidade do Rio de Janeiro se encontra sob uma camada de inversão térmica. Quando ocorre inversão térmica, a atmosfera fica mais estável e muito menos turbulenta, dificultando a dissipação da névoa junto à superfície. Assim, com ar bastante estável sobre a Capital carioca, a névoa úmida ou o nevoeiro atuante em certas regiões persistiu até o início da tarde.

 

Em situações típicas, a luz do Sol aquece a superfície e esta aquece o ar imediatamente acima dela, transmitindo calor para a atmosfera. Assim, a temperatura diminui com a altura (em situações típicas), ou seja, o ar de porções mais altas da atmosfera é mais frio do que o ar mais próximo à superfície. Quando ocorre inversão térmica, a temperatura do ar aumenta com a altura, ou seja, o ar de porções mais altas da atmosfera está mais quente do que o ar mais próximo à superfície. 

 

Como o ar quente se expande, ficando menos denso, ele tende a ganhar altura. Assim, quando o ar se aquece ele sobe, quando submetido às condições típicas da atmosfera. Esta movimentação vertical da atmosfera, alimentada pelo aquecimento da superfície, agita bastante o ar através da turbulência. Quando ocorre inversão térmica, o ar aquecido pela superfície não tende a subir, porque acima dele já há ar tão ou mais quente do que ele, ou seja, mesmo aquecido ele é mais denso do que o ar sobre ele, permanecendo aproximadamente na altura em que já se encontrava. Assim, na ocorrência de inversão térmica o ar junto à superfície tem pouca movimentação vertical e não se agita tanto, permanecendo estável e contribuindo para a ocorrência e persistência de névoa úmida ou nevoeiro. 

 

A inversão térmica age como uma "tampa", retendo ar estável abaixo dele e assim inibindo a dissipação de névoa e nevoeiro, além de possibilitando a concentração de poluentes, que também tem dificuldade de se dispersar nesta condição. Abaixo, a radiossondagem oriunda do Aeroporto do Galeão às 09:00, com o trecho destacado em vermelho mostrando a camada de inversão térmica: a temperatura se eleva, ao invés de diminuir, até a altura em que a pressão é aproximadamente 900hPa. 

 

Destacada em vermelho a camada de inversão térmica.



Como a condição de inversão térmica persiste sobre o Rio e como os ventos permanecem de quadrante sul, a névoa úmida volta a ocorrer na cidade ao longo da noite deste domingo e madrugada de sábado. Além disso, nos meses de inverno, com o ar mais frio e seco, é mais comum a ocorrência de inversão térmica.

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