Represa de Sobradinho está abaixo de 10%

05/08/2017 às 08:24
por Alexandre Nascimento

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Sequência de anos com chuva muito abaixo da média deixa Sobradinho com risco de chegar a 0% de sua capacidade total.

O reservatório de Sobradinho, principal reservatório nordestino construído entre o norte da Bahia e o oeste de Pernambuco para armazenar água do rio São Francisco está cada ano pior. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema (ONS) está operando com menos de 10% de sua capacidade total desde o dia 01/08/2017. No mesmo dia, mas no ano passado a situação já era péssima, mas estava 8% a mais do que neste ano (18,5%). Veja o comparativo dos últimos anos:

 

Dia 01/08

2017

2016

2015

2014

2013

2012

2011

2010

Armazenamento (% em relação à capacidade total)

9,90

18,46

16,63

43,40

41,53

47,91

74,82

61,97

Fonte: ONS

 

Existem nesses dados dois divisores de águas, uma situação bem confortável até 2011, outra intermediária, mas completamente eficaz para atravessar o restante do período seco até o período úmido entre 2013 e 2014 e as situações críticas dos últimos anos. Nos últimos anos o que salvou o sistema foi a utilização de térmicas e a diminuição das vazões de entrada e saída do reservatório. Neste ano a diminuição foi ainda mais drástica, chegando ao nível mínimo capaz de manter o abastecimento de água da população ribeirinha à jusante do reservatório.

Os mapas abaixo mostram que tivemos de 2012 para cá uma sequência de anos com chuva abaixo da normalidade ao longo da calha do rio São Francisco, sendo agravada pela forte escassez de chuva (muito abaixo da normalidade) em 2014 e 2015. Só relembrando que 2014 foi o ano da crise hídrica em grande parte do Brasil, inclusive no Sudeste, ocasionada por um forte e prolongado bloqueio no verão, que impediu o deslocamento das frentes frias pelo país. Em outras palavras, a situação já não vinha muito boa depois da escassez de 2012, com pouca recuperação ao longo de 2013.  O que ajudou um pouco o início do ano de 2014 foi a atuação de uma forte ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul) entre os dias 15 e 23 de dezembro de 2013, proporcionando muita chuva neste mês e com grande reflexo na recuperação de Sobradinho ao longo de janeiro de 2014. De lá para cá quase não choveu. Houve apenas um mês com chuva acima da média no São Francisco. No final de 2014 tivemos a formação daquele que se tornaria o El Niño mais forte do século e o segundo mais intenso da história. Por conta disso, choveu de forma concentrada apenas sobre o Sul do país. O centro-norte do Brasil ficou com chuva muito abaixo da média e, por isso, observamos a forte queda do armazenamento de Sobradinho nos anos de 2015 e 2016. E mesmo com o enfraquecimento do El Niño, a chuva não voltou com força capaz de reverter essa situação.

 

No início dos anos 2000 nós já havíamos passado por uma situação ruim, com apagão e racionamento. Naquela época não havia parque térmico capaz de ajudar o sistema e a crise foi imediata. No entanto, observamos que nos anos subsequentes chegamos a uma rápida recuperação, atingido valores bem confortáveis a partir de 2004 até 2011. Duas questões nos vêm neste momento: existe semelhança entre as duas crises hídricas? O que pode ter salvado o sub-sistema depois da crise do apagão?

 

Dia 01/08

2009

2008

2007

2006

2005

2004

2003

2002

2001

Armazenamento (% em relação à capacidade total)

81,66

63,16

66,70

80,05

83,43

90,82

33,67

59,22

18,52

Fonte: ONS

 

Em ambos os casos, o que houve antes da crise foi a presença de uma La Niña moderada e relativamente prolongada. Depois passamos alguns meses em neutralidade e houve a posterior formação de um El Niño, conforme se pode verificar na tabela abaixo.

 

Year

DJF

JFM

FMA

MAM

AMJ

MJJ

JJA

JAS

ASO

SON

OND

NDJ

2000

-1.6

-1.4

-1.1

-0.9

-0.7

-0.7

-0.6

-0.5

-0.6

-0.7

-0.8

-0.8

2001

-0.7

-0.5

-0.4

-0.3

-0.2

-0.1

-0.1

-0.1

-0.2

-0.3

-0.4

-0.3

2002

-0.2

0.0

0.1

0.2

0.4

0.6

0.8

0.8

0.9

1.1

1.2

1.1

2003

0.9

0.7

0.4

0

-0.2

-0.1

0.1

0.2

0.2

0.3

0.3

0.3

2004

0.3

0.3

0.2

0.1

0.2

0.3

0.5

0.6

0.7

0.7

0.6

0.7

2005

0.7

0.6

0.5

0.5

0.3

0.2

0

-0.1

0

-0.2

-0.5

-0.7

2006

-0.7

-0.6

-0.4

-0.2

0.0

0.0

0.1

0.3

0.5

0.7

0.9

0.9

2007

0.7

0.4

0.1

-0.1

-0.2

-0.3

-0.4

-0.6

-0.9

-1.1

-1.3

-1.3

2008

-1.4

-1.3

-1.1

-0.9

-0.7

-0.5

-0.4

-0.3

-0.3

-0.4

-0.6

-0.7

2009

-0.7

-0.6

-0.4

-0.1

0.2

0.4

0.5

0.5

0.6

0.9

1.1

1.3

Year

DJF

JFM

FMA

MAM

AMJ

MJJ

JJA

JAS

ASO

SON

OND

NDJ

2010

1.3

1.2

0.9

0.5

0.0

-0.4

-0.9

-1.2

-1.4

-1.5

-1.4

-1.4

2011

-1.3

-1.0

-0.7

-0.5

-0.4

-0.3

-0.3

-0.6

-0.8

-0.9

-1.0

-0.9

2012

-0.7

-0.5

-0.4

-0.4

-0.3

-0.1

0.1

0.3

0.3

0.3

0.1

-0.2

2013

-0.4

-0.4

-0.3

-0.2

-0.2

-0.2

-0.3

-0.3

-0.2

-0.3

-0.3

-0.3

2014

-0.5

-0.5

-0.4

-0.2

-0.1

0.0

-0.1

0.0

0.1

0.4

0.5

0.6

2015

0.6

0.5

0.6

0.7

0.8

1.0

1.2

1.4

1.7

2.0

2.2

2.3

2016

2.2

2.0

1.6

1.1

0.6

0.1

-0.3

-0.6

-0.8

-0.8

-0.8

-0.7

2017

-0.4

-0.1

0.2

0.4

0.5

             

Fonte: NOAA

 

O período úmido compreendido entre a primavera de 2001 e o verão de 2002 foi de neutralidade e houve uma boa recuperação em relação ao ano anterior, com a atuação de uma oscilação de Madden Julian (MJO) ajudando no início do ano (primeira quinzena de janeiro). Depois houve um El Niño moderado, mas rápido, entre meados de 2002 e o início de 2003 e o sistema voltou a sofrer decréscimo em relação ao ano anterior. Entre o restante de 2003 até meados de 2004 voltamos a ter normalidade e o sistema se recuperou muito bem. No ano de 2004 choveu acima da normalidade ao longo de todo o São Francisco, principalmente por causa da intensa chuva em janeiro (por causa da atuação de uma intensa onda de MJO) e também em fevereiro.

Entre 2004 e 2011 a represa de Sobradinho não passou por nenhum grande estresse, ficando sempre acima de 60% quando olhamos para o início de agosto. Ao longo destes anos tivemos a formação de alguns eventos de El Niño, mas que intercalaram com La Niña e o sistema foi se reequilibrando (se em um ano chovia menos do que a média, no outro chovia mais e em média o sistema não sentiu tanto).

 

Já este último evento seco está bem mais prolongado que o do início do século. Depois da moderada e prolongada La Niña, que teve início entre meados de 2010 e início de 2011, com repique entre meados de 2011 e começo de 2012, passamos por um longo período neutro e sem atuação de nenhum outro sistema meteorológico capaz de ajudar a provocar chuva persistente na região. Depois houve a formação do intenso bloqueio entre o final de 2013 e fevereiro de 2014 e, posteriormente, a formação de um forte El Niño a partir do final deste mesmo ano. Entre este período e hoje, só houve dois eventos de chuva intensa ao longo do São Francisco, devido à atuação de uma ZCAS e uma oscilação de Madden Julian (dezembro de 2013 e janeiro de 2016, respectivamente). Esses eventos provocaram muita chuva, mas como não teve sequência, a melhora só foi momentânea na vazão do São Francisco e na recuperação de Sobradinho. Fora esses dois eventos, a chuva esteve sempre abaixo da normalidade (especialmente em meses com muita significância pluviométrica). A atuação de alguns sistemas meteorológicos de inverno foi observada, mas só houve impactos positivos nas Bacias do Sul e do Sudeste (ou seja, a chuva não chegou à região de Três Marias, próximo à cabeceira do São Francisco).

 

Em resumo, o gatilho para a formação da crise hídrica foi o mesmo, mas a retomada pós crise foi bastante diferente. Com isso, o sistema se recuperou depois de 2003 e até 2011 não teve grandes baixas. A crise de agora ainda está se agravando, com possibilidade de Sobradinho atingir 0% no fim de outubro, segundo o própria ONS.