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Cidade de 3.400 anos reaparece devido à seca no Iraque

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8 min de leitura

Há meses o sul do Iraque vem sofrendo com uma seca extrema. Desde dezembro de 2021, grande volume de água foi desviado da represa de Mosul, o reservatório mais importante do país, para evitar que as colheitas fossem totalmente perdidas.

 

Devido ao baixo nível hídrico, as ruínas de uma cidade de 3.400 anos, desaparecida há décadas, emergiram à beira do reservatório.

 

"Vi em imagens de satélite que o nível da água estava baixando, mas não estava claro quando a água voltaria a subir. Então tínhamos uma janela de tempo indeterminada", explica a arqueóloga alemã Ivana Puljiz, professora da Universidade de Freiburg.

Apesar das dificuldades e da urgência, os arqueólogos sabiam que o local, conhecido como Kemune, era interessante, pois já haviam estado lá.

 

 

Ruínas da antiga cidade ficaram visíveis por cerca de seis semanas (Foto: Universitäten Freiburg und Tübingen, KAO)

 

Assim, Puljiz se reuniu com Hasan Ahmed Qasim, arqueólogo curdo, diretor da Organização de Arqueologia do Curdistão, e Peter Pfälzner, professor de Arqueologia da Universidade de Tübingen, para realizar uma escavação espontânea de resgate.

 

Eles reuniram rapidamente uma equipe de arqueólogos alemães e curdos para documentar o máximo possível do grande sítio. Desta forma, por sete semanas, entre janeiro e fevereiro, a equipe pesquisou a cidade da Idade do Bronze, antes que ela voltasse a ser completamente inundada.

 

 

Grandes edifícios


Durante uma fase de seca semelhante no Iraque em 2018, os pesquisadores haviam descoberto um palácio semelhante a uma Fortaleza, localizado nas proximidades de uma pequena colina e delimitado por um grande muro.

 

Na época, a equipe de Ivana Puljiz encontrou restos de pinturas murais em tons de vermelho e azul brilhantes, considerados uma característica típica desses palácios.

O fato de os pigmentos terem sido preservados apesar das inundações foi "uma sensação arqueológica", disse Puljiz à DW, após sua visita ao local em 2022.

 

"É claro que tínhamos grandes esperanças", afirmou, referindo-se à nova expedição. "Com base no que encontramos em 2018, sabíamos que esse local poderia trazer descobertas interessantes. Mas não sabíamos exatamente o que encontraríamos", explicou Puljiz.

 

Todo o esforço não foi em vão: durante a escavação recente, os arqueólogos conseguiram descobrir outros grandes edifícios, como uma enorme fortificação com muro e torres que cercavam a cidade.

 

 

Uma cidade poderosa que dominava a área


A descoberta de um grande armazém de vários andares foi particularmente surpreendente: "Só o tamanho desse edifício mostra que ele deve ter abrigado uma enorme quantidade de mercadorias. E elas tiveram que ser produzidas e levadas para lá", disse Puljiz. Isso sugere que a cidade obtinha suprimentos de uma área circundante.

 

Puljiz explica que as descobertas iniciais sugerem que o extenso complexo da cidade poderia ser a antiga Zachiku, um importante centro do Império Mitani (por volta de 1.550 a 1.350 a.C.), que controlava grande parte do norte da Mesopotâmia e da Síria.

No entanto, não se sabe muito sobre Zachiku. "Há pouquíssimas menções ao nome desta cidade em outras fontes. Só agora estamos adquirindo novos conhecimentos sobre ela."

 

 

Vasos de cerâmica com mais de 100 inscrições


Segundo Ivana Puljiz, apesar de serem feitas de tijolos de adobe não queimados que estão debaixo d'água há décadas, as paredes e fundações do edifício parecem estar em condições surpreendentemente boas.

 

Acredita-se que um grande terremoto que atingiu a cidade por volta de 1.350 a.C. tenha ajudado a preservar essas paredes: quando o prédio foi destruído, os escombros que caíram podem ter coberto as partes inferiores das paredes, preservando-as.

 

Um dos achados mais fascinantes, disse a pesquisadora, foi a descoberta de cinco vasos de cerâmica contendo mais de 100 tábuas cuneiformes – uma das formas de escrita mais antigas do mundo –, como se proviessem de uma espécie de arquivo.

 

Algumas das tábuas de argila foram encontradas em "envelopes", também de argila. "Essas tábuas de argila sólida, não queimada, ficaram debaixo d'água por tanto tempo e sobreviveram. Esperamos que em breve possam ser lidas por um filólogo. Isso é realmente uma sensação", destacou Puljiz.

 

 

Império Mitani


As tábuas de argila foram criadas no período da Assíria Média, logo após o devastador terremoto, quando a população pode ter começado a se estabelecer novamente nas ruínas da cidade antiga.

 

Os textos cuneiformes poderão fornecer informações sobre o fim do período Mitani e o início do domínio assírio na região. O Império Mitani ainda é um dos menos estudados da Antiguidade.

 

Durante seu apogeu, em meados do segundo milênio a.C., se estendia da costa mediterrânea, através da atual Síria até o norte do Iraque.

 

 

Guerra prejudica descobertas


Acredita-se que a realeza de Mitani mantinha uma boa relação com os faraós egípcios e governantes babilônicos. Mas, por volta de 1.350 a.C., o reino foi conquistado pelos vizinhos hititas e assírios.

 

Os eventos que levaram à queda da cidade de Zachiku permanecem obscuros. Para saber mais sobre o Império Mitani, os pesquisadores precisariam investigar o centro do antigo império – que provavelmente estava localizado no norte da Síria, explica Puljiz.

No entanto, os muitos anos de guerra na região tornaram impossíveis tais escavações arqueológicas.

 

"Sem encontrar textos notáveis ​​no centro do império, é muito difícil ter uma ideia de como ele funcionava, o que o mantinha unido ou o que os proprietários de terras faziam. Até agora, só temos focos isolados de luz em áreas periféricas, como agora o que provavelmente é a antiga Zachiku. Mas a área central permanece no escuro", ressalta Puljiz.

 

Antes que a cidade em ruínas fosse novamente submersa pelo reservatório, os arqueólogos cobriram os edifícios escavados com película plástica e cascalho, na esperança de protegê-los de mais danos. Com sorte, a cidade perdida reaparecerá um dia.

 

Este conteúdo é uma obra originalmente publicada pela agência alemã DW. A opinião exposta pela publicação não reflete ou representa a opinião da Climatempo ou de seus colaboradores.

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