Queremos respostas logo, mas a ciência não trabalha assim

30/04/2020 às 12:18
por Redação

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Presidente da Fiocruz fala sobre a parceria com a OMS e a necessidade de uma coordenação política estruturada

Eleita em 2016, Nísia Trindade Lima é a primeira mulher a comandar a Fundação Oswaldo Cruz em 120 anos de história. Uma das instituições científicas mais respeitadas do país, a Fiocruz foi fundada em 1900 com o objetivo de fabricar soros e vacinas contra a peste bubônica, mas a sua atuação foi além e, desde então, a história da instituição está diretamente ligada ao desenvolvimento da saúde pública no Brasil. 

 

Durante a pandemia de covid-19, a Fiocruz coordena no Brasil o ensaio clínico internacional Solidariedade, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que tem como objetivo investigar a eficácia de quatro tratamentos para a covid-19.

 

A presidente da Fiocruz enfatiza que é imprescindível pensar a pandemia como um fenômeno de várias dimensões, não apenas no âmbito da saúde. E que uma questão fundamental, além do conhecimento científico e a capacidade do sistema de saúde, é a coordenação política.

 

Em entrevista à DW Brasil, a presidente Nísia Trindade Lima, servidora da Fiocruz desde 1987, comenta os desafios do país com a pandemia de covid-19.

 

DW Brasil: A Fiocruz é parceira da OMS no estudo para tratamentos da covid-19. Como está sendo essa colaboração? Há alguma novidade do ponto de vista científico?

Nísia Trindade Lima: Há um estudo clínico sendo realizado em 18 hospitais de 12 estados brasileiros. É parte do projeto Solidariedade - um estudo com pacientes para verificar qual tratamento será eficaz para a saúde dos pacientes. Não há ainda resultados concretos sobre a eficácia de determinado medicamento. 

 

Esse estudo testa medicamentos conhecidos e registrados, já utilizados para outras doenças, mas que vão ter que ser estudados especificamente para a covid-19. A orientação do estudo é ir descartando aqueles medicamentos que se mostrem ineficazes ou que demonstrem ter um potencial de danos muito grande aos pacientes.

 

É realmente angustiante para todos nós ver o aumento de casos e casos fatais. Queremos ter respostas logo, mas a ciência não trabalha assim. Existem regras, existe o cuidado para que as afirmações sejam seguras. Esperamos logo ter informações concretas e resultados. Poder dizer ‘esse medicamento não é eficaz' e, principalmente, poder dizer ‘esse medicamento é eficaz'.

 

Falando em estudo de medicamentos, o uso da cloroquina está constantemente na mídia.

Esse estudo foi uma definição da Organização Mundial de Saúde que inclui a cloroquina, a hidroxicloroquina, antivirais importantes, e incluiu o interferon-beta também. Um conjunto de medicamentos está sendo avaliado a partir de um estudo clínico, que é a forma segura e científica de avaliar um medicamento.

 

Há muita coisa acontecendo no Brasil, também no âmbito político. Como isso impacta o trabalho da Fiocruz nesse contexto da pandemia, no diálogo e no avanço das pesquisas que vocês conduzem?

 

É impossível pensar a pandemia sem pensá-la como um fenômeno total. Uma questão fundamental, além do conhecimento científico e a capacidade do sistema de saúde, é a coordenação política desses esforços. Toda mudança impacta, e é muito importante que, nesse momento, exista uma agenda muito forte de coordenação das ações em todos os níveis de governo junto à sociedade para lidar com esse problema.

 

Nós da Fiocruz sempre dialogamos com todos os níveis de governo e somos vinculados ao Ministério da Saúde, um órgão central na coordenação dessas atividades. Desse ponto de vista, já estou discutindo com o novo ministro da Saúde a continuidade de importantes atividades pelas quais a Fiocruz é responsável.

 

O trabalho científico no Brasil nem sempre recebe o apoio necessário. A senhora acha que o que estamos vivendo tem escancarado a necessidade de mudança?

Sem conhecimento científico e políticas públicas adequadas será impossível lidar com este e outros desafios porque essa pandemia convive com outras manifestações de doenças, outros problemas de saúde. É importante pensar que a pandemia é um fenômeno de várias dimensões. Tem a pesquisa no campo biomédico, seja no conhecimento do vírus, da resposta biológica e da imunologia, mas tem também os conhecimentos nas áreas de ciências sociais, ciências humanas e da ética.

 

Todos esses conhecimentos têm que estar integrados na busca de soluções. Eu digo isso porque ao vir para um país de dimensão continental, com o nível de desigualdade do Brasil, outras características passam a se manifestar. Do ponto de vista da pesquisa científica, essa pandemia vai mostrar que a pesquisa científica é absolutamente imprescindível não só agora nesse momento, mas depois que esse pico de casos e de mortalidade reduzir – o que esperamos que seja em breve.

 

Há muitas perguntas sem resposta que requerem trabalho científico. Muitas pessoas perguntam ‘se eu fui infectado, eu não serei mais?'

A ciência ainda não tem uma resposta sobre o problema da reinfecção. É necessário fazer muita pesquisa para isso.

 

E como se dará a recuperação da economia? Isso também requer pesquisa científica. Como será lidar com aqueles grupos considerados de risco, principalmente os idosos e pessoas com algumas doenças?

É uma agenda de pesquisa em todas as áreas do conhecimento e que precisa de um esforço de recursos e de formação de pessoas. É um fenômeno que exige uma visão sistêmica. Não adianta olhar só para um lado, temos que ter um programa integrado a todas essas dimensões.

 

O Sistema Único de Saúde, criado em 1988, é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo. Como a senhora avalia a importância do SUS nesse momento?

Acho muito importante valorizar o SUS nesse momento porque, desde a Constituição de 1988, ele proporciona um sistema de proteção social a brasileiros que estavam fora deste sistema, como trabalhadores rurais, e todo o setor informal que sofre tanto com essa pandemia.

 

O SUS é um sistema universal num país continental que é marcado por uma profunda desigualdade. Ao mesmo tempo, é importante frisar que o SUS tem problemas de subfinanciamento. Neste grave momento, é muito importante que se olhe para a resposta emergencial, mas que também se pense em ações estruturantes que após esse círculo tão difícil que estamos vivendo possam dar sustentação a esse sistema.

 

Isso já está sendo demonstrado tanto na área de vigilância, ou seja, na detecção dos casos, na testagem, até o ponto crítico com o aumento dos casos - que se reflete na assistência hospitalar e na falta de leitos de UTI. Terá que haver um grande esforço nesse momento e a Fiocruz participa de todo esse esforço, mas precisamos pensar o futuro da saúde para além desta pandemia. Com a covid-19, todo mundo é desafiado, todo um modelo de desenvolvimento se mostra vulnerável. Acho que é um ponto de mudança. Lembrando as grandes reflexões do historiador Eric Hobsbawm sobre quando começam e terminam os séculos, ou seja, quais fatos econômicos, sociais e políticos levam a isso, alguns dizem que a pandemia marcará o início do século 21. Trata-se de um desafio novo, numa escala que os sistemas de saúde até agora não tinham vivido, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo.

 

Como é possível evitar que as ações não fiquem apenas restritas aos grandes centros e garantir o apoio a lugares isolados e extremamente vulneráveis, principalmente nesse momento?

A nossa intenção, ao longo de 120 anos de história, é olhar para esse Brasil distante dos grandes centros. Foram as atividades e viagens científicas da Fundação Oswaldo Cruz que levaram a imagem do Brasil como um imenso hospital no início do século 20, descobrindo, por exemplo, o ciclo completo da doença de Chagas com Carlos Chagas.

 

A ideia de ir até as regiões mais afastadas dos grandes centros é parte da história da nossa instituição. Hoje, isso ganha uma outra dimensão a partir da constituição do Sistema Único de Saúde porque a participação do Conselho Nacional de Saúde e dos conselhos estaduais e municipais de saúde dão mais capilaridade a esse diálogo, fazendo com que o cidadão possa ser representado.

 

Não é a Fiocruz como um grande sol irradiando pelo Brasil, essa seria uma imagem não só arrogante, mas totalmente falsa. O Brasil tem um dinamismo que muitas vezes não vemos dos nossos gabinetes. Agora, mais do que nunca, é importante estarmos juntos numa rede. Outra dimensão muito importante é o fato da Fiocruz estar presente em todas as regiões do Brasil com institutos e escritórios em dez estados. Há também uma plataforma de colaboração com os campi da USP em São Paulo e Ribeirão Preto voltada para a pesquisa translacional, que é a pesquisa voltada para resultados - tanto na produção de bens, de vacinas e medicamentos, quando na atenção às pessoas.

 

Todo dia são muitas notícias e um cenário que parece não ter solução. Gostaria de saber se, como representante da Fiocruz, há uma mensagem de otimismo para a população?

Eu entendo a ansiedade, mas acho que não se trata de acalmar, nem de gerar pessimismo. Trata-se de sermos realistas. Estamos vivendo o pior momento da pandemia no Brasil. Estamos vendo esse grande desafio para o sistema de saúde e na ponta está o profissional de saúde - muitos adoecendo, o número de casos e de mortes aumentando.

 

É um desafio enorme e requer, neste momento, uma coordenação política de todos os níveis de governo e de toda a sociedade. Mas acho que a política pública fala mais alto nesta hora. E a sociedade tem demonstrado solidariedade. Quanto mais coordenação política, melhor passaremos dessa fase crítica. Nesse momento, o primeiro objetivo é salvar vidas e preservar o nosso sistema de saúde, até porque existem outros problemas graves afetando as pessoas - não só as doenças infecciosas – mas também as doenças crônicas.

 

A Fiocruz está dedicada ao estudo clínico e à produção de testes de diagnóstico. Dobramos a produção de testes moleculares, que são aqueles que identificam os casos no início da infecção e que são mais precisos. Os testes são fundamentais agora e continuarão a ser porque sabemos que o vírus continuará a circular.

 

Mas, neste momento, a prioridade tem que estar voltada para a atenção aos casos, ao cuidado com as pessoas e em salvar vidas. Nós estamos num esforço muito grande junto a todo o sistema de saúde visando a ampliação da oferta de leitos de UTI. Mas não adiantam esforços isolados, terá que haver uma grande coordenação nacional no campo da saúde e naturalmente isso cabe ao Ministério da Saúde e a todas as instâncias de governo porque é um problema que ultrapassa a questão da saúde. Tem todas as menções econômicas, sociais, toda a logística necessária. Não dá para dizer que estou otimista ou pessimista. Como presidente da Fiocruz e como cidadã, estou preocupada vendo os dados e a situação do nosso sistema.

 

Mas espero que consigamos ter essa força de uma maneira ativa. A sociedade tem que se manifestar e a comunidade científica vem se manifestando. Temos buscado soluções e esperamos que a partir de políticas públicas adequadas exista uma coordenação nacional e possamos reduzir ao máximo esse problema. Não podemos esquecer também a desigualdade no Brasil que é um país onde se nasce, se cresce, se vive e se morre de forma desigual. Olhar para essa questão da equidade é fundamental nesse momento.

 

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