Calorão na Sibéria é quase impossível sem mudanças climáticas

16/07/2020 às 14:31
por Redação

Atualizado 29/10/2020 às 14:18

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Alteração no clima aumentou em 600 vezes chance de verão intenso na região, diz análise

Por Cinthia Leone, Climainfo

 

Alteração no clima aumentou em 600 vezes chance de verão intenso na região, diz análise

 

O recente calor prolongado na Sibéria, de janeiro a junho de 2020, seria quase impossível sem a influência das mudanças climáticas causadas pelo homem. É o que indica um estudo do tipo “análise rápida de atribuição” conduzido por alguns dos principais cientistas do clima. As mudanças climáticas aumentaram as chances de calor sustentado na região em pelo menos 600 vezes. Esse é um dos resultados mais contundentes de qualquer estudo de atribuição realizado até o momento.



As temperaturas na Sibéria estão bem acima da média desde o início do ano. Uma nova temperatura recorde para o Ártico -- 38°C -- foi registrada na cidade russa de Verkhoyansk em 20 de junho, enquanto as temperaturas gerais da Sibéria ficaram mais de 5°C acima da média de janeiro a junho.

 

Análise rápida de atribuição

Análises rápidas de atribuição tem o papel de oferecer dados de forma ágil para as autoridades enquanto o evento observado ainda está em curso ou está fresco na memória dos tomadores de decisão. Para isso, é necessário envolver um grande número de pesquisadores -- e até de processadores computacionais. 

 

Participaram da avaliação sobre as ondas de calor do Ártico pesquisadores de universidades e de serviços meteorológicos de diferentes países. Eles descobriram que as temperaturas estão 2°C mais quentes do que ocorreria sem a influência dos gases de efeito estufa provenientes de atividades humanas.


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Influência do homem no aumento do calor no Ártico

Para medir o efeito das mudanças climáticas sobre as temperaturas observadas na Sibéria, os cientistas fizeram simulações computacionais e compararam o clima atual, com cerca de 1°C de aquecimento global, com o clima que existiria sem a influência humana. A análise mostrou que o calor prolongado que a região experimentou este ano aconteceria menos de uma vez a cada 80 mil anos se não houvesse interferência antrópica.

 

Os cientistas observaram que, mesmo no clima atual, o calor prolongado ainda era improvável: condições extremas podem ocorrer menos de uma vez a cada 130 anos. Mas sem cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa, esses eventos correm o risco de se tornar frequentes até o final do século.

 

“Este estudo mostra que não só a magnitude da temperatura foi extremamente rara, mas também os padrões climáticos que a causaram”, afirma a professora Olga Zolina, Instituto P.P.Shirshov de Oceanologia, em Moscou. “Continuamos a estudar como os incêndios florestais que queimaram milhares de hectares também podem afetar o clima, à medida que as chamas bombeiam fumaça e cinzas na atmosfera”, conclui a pesquisadora, que integra o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).



Incêndio em florestas da Rússia em janeiro de 2020 (Imagem: IStock)

 

 

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Consequências do aumento da temperatura 

O calor na Sibéria provocou incêndios generalizados, com 1,15 milhão de hectares queimados no final de junho e uma liberação de cerca de 56 milhões de toneladas de dióxido de carbono -- mais do que as emissões anuais de alguns países industrializados, como Suíça e Noruega.

 

Esse cenário também acelerou o derretimento do pergelissolo (ou permafrost, como é chamado em inglês), que é o tipo de solo característico da região do Ártico. Um tanque de óleo construído sobre o pergelissolo entrou em colapso em maio, levando a um dos piores derramamentos de óleo da região.

 

Os gases liberados pelos incêndios, o derretimento desse solo congelado e a diminuição da refletividade do planeta devido à perda de neve e gelo vão aquecer ainda mais o planeta. O calor também foi associado a um surto de mariposas de seda, cujas larvas comem pinheiros.

 

Sonia Seneviratne, professora do Departamento de Ciência de Sistemas Ambientais da ETH (Swiss Federal Institute of Technology) de Zurich, na Suíça, destaca que esses resultados mostram que o planeta já está vivendo eventos extremos que quase não teriam chance de acontecer sem a pegada humana no sistema climático. “Temos pouco tempo para estabilizar o aquecimento global em níveis em que as mudanças climáticas permaneceriam dentro dos limites do Acordo de Paris. Para uma estabilização a 1,5°C do aquecimento global, o que ainda implicaria mais riscos de eventos extremos de calor, precisamos reduzir nossas emissões de CO2 em pelo menos metade até 2030”, afirma a pesquisadora, que também integra o IPCC. 

 

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