Racismo não é sustentável

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Fonte: iStock

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O conceito de sustentabilidade é composto por três dimensões inter-relacionadas: a economia, o meio ambiente e a equidade. Ações que levem em conta somente a economia e o ambiente e desconsideram as desigualdades sociais não são sustentáveis de fato. Por isso o combate às disparidades sociais faz parte das lutas ambientalistas e contra as mudanças climáticas. 


Por exemplo: uma pessoa que mora na periferia de qualquer grande cidade brasileira precisa, muitas vezes, se deslocar por horas todos os dias para ir ao trabalho e voltar para casa. Quanto mais uma pessoa se desloca pelos grandes corredores urbanos da cidade, mais ela absorverá a poluição atmosférica gerada pelos veículos motorizados. São os mais pobres que estão submetidos aos níveis mais perigosos de poluição do ar, e a maioria deles são negros. Isto significa que lutar por uma melhor mobilidade nas cidades brasileiras e combater a poluição produzida pelos veículos é em si mesmo um ato antirracista. 


Em meados deste século, a mudança climática será responsável por deslocar milhares de pessoas de seus territórios e provocará a morte de outros milhares. Esses óbitos estarão concentrados nos países mais pobres do mundo, e nessas nações, nos grupos mais vulneráveis. No caso do Brasil, serão as pessoas não brancas as mais atingidas pelos efeitos da instabilidade do clima. 

 

O que é racismo ambiental?

A prática de impor impactos ambientais de modo desproporcional a determinados segmentos da população é chamada pelos estudiosos de racismo ambiental. O termo foi usado pela primeira vez nos Estados Unidos pelo ativista de direitos humanos Benjamin Franklin Chavis Jr. Em 1986 Chavis conduziu um estudo (Toxic Waste and Race in the United States of America) que revelou estatisticamente uma correlação entre a localização dos resíduos tóxicos daquele país e o perfil racial das comunidades impactadas por esses depósitos — majoritariamente bairros ou cidades de maioria negra. 


Essa desigualdade também pode ser observada no impacto de grandes obras no Brasil. Imagine se o governo resolvesse instalar dezenas de torres de energia de 44 metros de altura na porta da sua casa sem perguntar sua opinião? Comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas do norte do Pará estão vivendo essa situação neste exato momento. Essa consulta é obrigatória e está prevista tanto na lei brasileira como nas leis internacionais. Esse tipo de desrespeito é frequente, mas não atinge a todos — são as populações negras e indígenas do país as principais vítimas.


Se as mudanças climáticas estão provocando tempestades cada vez mais severas, serão os moradores das encostas, áreas alagáveis e habitações precárias os mais atingidos. Quando as estiagens forem mais intensas, os bairros mais pobres terão mais cortes de abastecimento de água. Quando o desmatamento desenfreado interfere no regime das chuvas, os pequenos agricultores têm os maiores prejuízos por não terem condições de arcar com sistemas de irrigação adaptativos — e eles são majoritariamente negros, como aponta o censu rural de 2019 do IBGE. Não é coincidência, nem fatalidade. A mentalidade colonial-exploradora na relação com a natureza que levou o planeta à atual crise climática é a mesma que estruturou o racismo nas sociedades humanas. 

 

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