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450 mil sofrem com maior cheia da história da Bacia Amazônica

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Foto: cheia do rio Negro em Manaus (AM),  Serviço Geológico do Brasil (CPRM)

8 min de leitura

Estudiosos das mudanças climáticas já previam maior frequência de inundações severas na região. A população da Bacia Amazônica sofre com dificuldade de acesso à água potável. 


Na semana passada, o rio Negro bateu pela segunda vez seu recorde de cheia, chegando a 30,02 metros. No começo do mês, o rio já tinha registrado 30 metros, o maior volume desde 1902, quando começaram as medições. A esperança de que os níveis pudessem baixar com a chegada da estação seca, em junho, não se confirmou, e apenas ontem a marca oscilou para baixo, atingindo 30,01 metros, indicando uma possível estabilização. 


Desde maio o nível do Negro está extremamente alto — no dia 21/05, o nível do rio era de 29,84 metros — a segunda maior marca da história. Naquele momento, 58 dos 62 municípios amazonenses já estavam alagados. Após todo esse período debaixo d’água, 48 cidades do estado estão atualmente em estado de emergência. São cerca de 455 mil pessoas atingidas em toda a Bacia Amazônica.

 


O que explica uma cheia tão severa? 

 

Fizemos esta pergunta a três cientistas: o físico Paulo Artaxo, professor da Universidade de São Paulo; Luna Gripp, pesquisadora do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e responsável pelo Sistemas de Alertas Hidrológicos da Bacia Ocidental do Amazonas; e o meteorologista Renato Senna do Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM). 


Essa cheia não é resultado da chuva da semana passada, mas o resultado da chuva acumulada desde janeiro. As inundações são causadas por excesso de chuva na bacia, e há um tempo de defasagem”, explica Gripp. “São rios muito grandes. Imagina o tempo que um volume de água leva para viajar desde a Colômbia até Manaus — leva mais de dois meses”.   

 

A grande cheia deste ano pode ser relacionada ao evento La Niña, águas atipicamente frias, que ocorrem na superfície do oceano Pacífico Equatorial”, explica Senna.

 

“A ocorrência deste evento está associada a alterações nos padrões de circulação atmosférica que acabam por incrementar a convecção em áreas da Amazônia ocidental, aumentando os volumes de precipitação registrados nesta região.” 


Perguntado se as cheias de 2021 são consequência da mudança climática, Artaxo explica que a resposta para essa pergunta nunca poderá ser simplesmente “sim” ou “não”. “Apesar dessas cheias serem um evento de tempo, sob influência direta de La Niña, o aumento considerável na frequência com que cheias extremas ocorrem está de acordo com as previsões dos Climatologistas que compõem o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas [IPCC, da sigla em inglês]”, explica o professor.

 

“Ou seja, é o aumento da frequência de eventos extremos, tanto de cheia, como de seca, que pode ser atribuído ao aquecimento global.”


Os três pesquisadores mencionaram um dado impressionante: 6 dos 10 maiores eventos de cheia ocorreram nos últimos 12 anos, segundo os registros do Porto de Manaus. Se for incluída a cheia de 2021, a maior de todos os tempos, serão então 7 das 10 maiores inundações. 

 

As secas extremas também ficaram mais frequentes: 4 dos 10 eventos de estiagem mais significativos ocorreram a partir de 1997, sendo que o mais severo foi em 2010.


Observe as datas das maiores cheias registradas no Porto de Manaus:


2021 - 30,02 m

2012 - 29,97 m

2009 - 29,77 m

1953 - 29,69 m

2015 - 29,66 m

1976 - 29,61 m

2014 - 29,50 m

1989 - 29,42 m

2019 - 29,42 m

1922 - 29,35 m

2013 - 29,33 m


Quando tudo voltará ao normal? 


Segundo Gripp, “normal” é algo muito relativo na região amazônica. Ela explica que as comunidades que estão mais próximas às cabeceiras podem ver uma diminuição do nível das águas mais rapidamente. Na região central da Bacia, onde está Manaus, a expectativa é que a saída da chamada cota de inundação severa, abaixo de 29 metros, será lenta e gradual. 


A volta à calha natural para a capital do Amazonas (27,5 metros, quando a maior parte da cidade deixa de estar inundada), levará ainda mais tempo.

 

“Mas se você me pergunta sobre a “normalidade” no sentido de não ter mais casas e plantações alagadas na Bacia Amazônica, não é possível prever exatamente como e quando, mas levará muito tempo.”


Senna explica que essa cheia impressionante não aconteceu de uma hora para outra. “Desde o início de 2021 a bacia de captação do Rio Negro no noroeste do Estado do Amazonas e seu principal afluente o Rio Branco, cuja bacia cobre praticamente todo o estado de Roraima, apresentam volumes de precipitação considerados acima dos valores de referência”, explica o pesquisador. 


Segundo ele, também sobre alguns afluentes do Rio Solimões foram observados excessos de precipitação no começo do ano, com enchentes no Acre e alguns municípios do Amazonas ainda em fevereiro, nas calhas dos rios Purus, Acre e Juruá.

 

“A cheia no Porto de Manaus por sua proximidade ao encontro das águas destes dois grandes rios [Negro e Solimões, que forma ali o rio Amazonas] é fortemente influenciada pelo comportamento desses outros rios”, acrescenta Senna. 


As populações se adaptam? 

 

“Embora o senso comum reforce que os amazônidas são povos acostumados com esses extremos de cheia, isso era muito menos frequente”, relata Gripp.

 

Ela explica que sua área de atuação é exclusivamente a geração de dados geocientíficos, mas como é responsável pela geração dos alertas, a pesquisadora tem ouvido histórias de dificuldades extremas durante esta cheia. 

 

“Tem muitos impactos na população”, afirma. “Moradores de Careiro da Várzea, próxima a Manaus, me relataram que eles estavam acostumados, que eles até conseguiam tirar o gado no momento de cheia — o que também tem um custo. Só que agora as cheias extremas ocorrem praticamente todo ano. E eles têm razão, os dados hidrológicos comprovam isso, e essa intensidade afeta muito a capacidade de resiliência das comunidades”. 


A pesquisadora se preocupa especialmente com o acesso à água potável. “A população amazônica tem uma proximidade muito grande com os rios. É comum as pessoas lavarem as roupas, escovarem os dentes ou tomarem banho nos rios.

 

Mas numa situação de extrema inundação, isso é o caos”, explica.

"Para onde vão os dejetos, o esgoto? Fica tudo misturado.” 


A defesa civil tem tentado amenizar o risco sanitário em alguns municípios por meio do envio de estações de tratamento de esgoto flutuantes em balsas. 


Gripp destaca ainda que os impactos psicológicos na saúde geral da população é pouco conhecido, embora análises preliminares já indiquem que sejam graves. 


Você já leu aqui que um estudo realizado em parceria com a Fiocruz descobriu que eventos extremos de cheia afetam mulheres grávidas e crianças recém-nascidas, com aumento de abortos, nascimentos prematuros e crianças com baixo peso ao nascer. 


Para saber mais: 


É possível entender como os eventos La Niña e El Niño influenciam a precipitação neste site.

 

 

 

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