Cápsulas do tempo: como árvores podem ensinar a preservar

06/02/2020 às 22:09
por Josélia Pegorim

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Estudo indica que manejo humano de florestas como a Amazônia nos períodos ancestrais foi feito de forma sustentável.

Para o engenheiro florestal brasileiro Victor Lery Caetano-Andrade cada árvore é uma verdadeira cápsula do tempo: carrega informações preciosas sobre as relações dos seres humanos com a natureza. Pesquisar e entender como isso vem ocorrendo há milhares de anos pode ser uma chave para que a humanidade contemporânea consiga manejar de modo consciente, sustentável e responsável os recursos naturais.

 

Em artigo científico publicado nesta quinta-feira (06/02) no periódico Trends in Plant Science, Caetano-Andrade, que é pesquisador do Instituto Max Planck, na Alemanha, demonstra como análises dendrocronológicas – ou seja, dos anéis dos troncos das árvores –, datações de carbono e diagnósticos genéticos comprovam que florestas como a Amazônia brasileira não são santuários intocados pelo homem. Mas a sua diversidade e evolução ao longo dos milênios é prova de que, se houve um manejo humano, este foi, nos períodos ancestrais, feito de forma sustentável.

 

"A principal conclusão é que existem formas de se manejar a floresta que não são aquelas impostas pelo modelo de agricultura europeu, que chegou junto com a colonização. Estou me referindo aos campos abertos com plantios de culturas anuais", afirma em entrevista à DW Brasil.

 

"Precisamos considerar esse conhecimento antes de se pensar em qualquer forma de preservação dessas áreas florestais. Porque se continuarmos levando modelos de agricultura e desenvolvimento incompatíveis com as florestas, corremos o risco de não conseguir garantir a preservação desses ambientes para as futuras gerações", diz.

 

Caetano-Andrade ressalta que os seres humanos ocupam florestas tropicais há pelos menos 45 mil anos e, no caso amazônico, desde pelo menos 12 mil anos atrás.

"Temos de aprender como os seres humanos evoluíram nas florestas. Antes de pensar em modelos de preservação, é preciso considerar as pessoas, porque elas já estavam habitando as florestas. Preservação sem pessoas é difícil de pensar, porque as florestas já são uma espécie de artefato arqueológico", diz.

 

Amazônia e interferência humana

Um exemplo que ilustra isso é a disseminação da Bertholletia excelsa, a castanha-do-Brasil, pela Amazônia. Durante alguns meses do ano passado, Caetano-Andrade coletou amostras de 800 exemplares da árvore. Em um trabalho anterior, ele já havia observado relações da planta com sítios arqueológicos amazônicos, ou seja, regiões que historicamente foram ocupadas por indígenas.

 

"Humanos obviamente favoreceram alguns indivíduos durante sua ocupação, aquelas plantas que lhes interessavam mais. Essas práticas favoreciam algumas árvores em detrimento de outras. Depois, com o trecho de floresta abandonado, há o crescimento de outras árvores ao redor", explica.

"O ser humano sempre deixa as espécies que para ele são importantes, praticando um sistema de agrofloresta, na qual se planta também mandioca e outras coisas, mas mantendo a floresta em pé. E isso acaba permitindo o nascimento e o crescimento de novas árvores", afirma o pesquisador.

 

Períodos como o ciclo da borracha, cujo auge ocorreu entre 1879 e 1912, também deixaram cicatrizes indeléveis na distribuição das plantas no meio da mata, seja pela abertura de trilhas, seja pela preservação de árvores "úteis" ao ser humano.

 

O brasileiro Tiago Reis, cientista que estuda desmatamento e uso do solo na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, comentou, a pedido a DW Brasil, a importância de pesquisas desse tipo. Para ele, é necessário ressaltar, ao contrário do imaginário comum, que a Amazônia "é uma floresta manejada".

 

"Se pensarmos pré-historicamente, existem indícios muito fortes de que toda essa diversidade, essa riqueza da floresta, é resultado de interferência humana", aponta. "Isso é muito interessante no sentido de trazer esperança. Tira um pouco aquela ideia de que existe uma floresta intocada, totalmente sem relação com os seres humanos."

 

O ponto importante, lembra Reis, é que os "nossos ancestrais que ocuparam socialmente a região faziam um manejo que promovia a diversidade". "[Eles entendiam] exatamente o que a floresta é: uma fazenda, uma fábrica – de alimentos, de óleos, de fibras, de uma infinidade de substâncias e produtos muito úteis para a civilização, o desenvolvimento e a prosperidade", comenta Reis.

"É muita miopia substituir toda essa riqueza legada pelos nossos ancestrais por monoculturas, cultivos limitados diante da diversidade que nos foi legada", acrescenta.

 

 

Cápsulas do tempo: como árvores podem ensinar a preservar

 

Coleta in loco

Para coletar amostras, Caetano-Andrade ficou alguns meses na região amazônica no ano passado. Para as análises, ele ressalta que o procedimento não é destrutivo.

"Eu faço um furo nas árvores e tiro um 'canudo' de madeira, da casca até o centro. Depois eu tampo o furinho com cera. Isso não causa danos às árvores", explica.

 

Ele conta que é possível se deparar com exemplares de mais de 400 anos. Em laboratório, o material colhido propicia tanto a análise dendrocronológica como a datação por radiocarbono. Para fazer diagnósticos de DNA, Caetano-Andrade recolheu amostras de folhas.

 

O estudo genético possibilita compreender interferências humanas anteriores à idade da árvore – por exemplo, identificando favorecimentos de seleção natural que podem ter sido resultado de influência do manejo do homem.

"Conseguimos captar populações de árvores que têm carga genética diferente do restante. Isso indica que o ser humano, de alguma forma, domesticou tais árvores", exemplifica.

 

Estudos anteriores apontam que, apesar da diversidade amazônica, cerca de 200 espécies compõem 50% dos indivíduos da floresta. "Entre elas há cinco vezes mais chances de ter uma espécie domesticada, o que indica que o ser humano tem uma influência grande na composição florestal hoje", ressalta Caetano-Andrade. "É importante entender esse contexto para pensar na preservação", afirma o cientista.

 

Na próxima fase de seu estudo, ele vislumbra utilizar as mesmas técnicas para mostrar os impactos do aquecimento global e outros problemas contemporâneos nas florestas.

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